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Babaovismo medieval é parte da tara das milícias virtuais?

Como vimos, a ala autocrática da direita – essencialmente reacionária, neoconservadora, populista e olavista – praticou mais um linchamento virtual no dia de ontem. Desta vez, o alvo foi o General Villas Boas. Isso tudo aconteceu após o linchamento virtual do General Santos Cruz, no fim de semana. Tudo dá a impressão de que temos uma revolta dos esgotos da Internet pela luta de boquinhas na base.

O problema é que a luta é muito baixa pois as milícias virtuais combatem pessoas que tem uma reputação a zelar. Enquanto isso, existem muitos discípulos de seita que não tem medo de tocar fogo no circo e geralmente não estão nem um pouco comprometidos com a democracia. Vale tudo. Tudo mesmo.

Diante desse circo vergonhoso, há uma pegadinha que pouca gente percebeu. Provavelmente o truque deve ter sido desenhado por algum ideólogo. Ou – quem sabe – tenha surgido por acidente? Quem sabe, não é mesmo? Independentemente da resposta, a ala extremista estaria adotando um padrão de frame, que é “se meu rei falou, ajoelhe-se”. Geralmente o padrão tem um formato adicional, que é: “eu represento meu rei e ele falou (x); então ajoelhe-se”. É simples assim. Na real, é uma maneira de enganar incautos.

O problema é que o discurso é mais falso que “bom dia” do atendente de telemarketing. Algo que talvez mereça entrar para a história das picaretagens retóricas da história política. Isso porque o discurso serve para confundir a mente de desatentos ao simular que estamos vivendo em 1500, antes das democracias modernas. Por que será? Será por acidente? De novo: quem sabe não seja acidente, certo?

O fato é que – de acordo com a estratégia da “boca do lixo” para buscar carguinhos e verbinhas – tem gente fazendo de tudo neste House of Carguinhos. Aqueles que reclamaram da avidez petista por mamatas e verbinhas é porque não viram a ala autocrática da direita. Comportamento antissocial é pouco pra descrever.

O curioso é que o truque tem funcionado porque eles fazem a pose – de acordo com os padrões de “representantes do rei” – de serem os “missionários da agenda verdadeira”. Tecnicamente, eles buscam uma autoridade moral injustificada, que é obtida unicamente pelo uso de maltas enlouquecidas na Internet, sendo que a maior parte dos que investem suas emoções nisso não ganharão uma pataca. Geralmente as verbinhas ficam para uma meia dúzia de espertalhões nesse tipo de jogo, mas é bom olhar caso a caso em que esses ataques acontecem. Por uma “coincidência miraculosa” geralmente espaços na base passam a ser ocupados por pessoas que – olha só que surpresa – são apoiadas pelas milícias virtuais. É o famoso melzinho na chupeta.

Em termos simples, o método é uma forma de exigir a “demanda pela pureza”, padrão identificado por Robert Jay Lifton em 1961 em seu estudo seminal sobre as seitas. Lifton escrevia:

No ambiente de reforma do pensamento, como em todas as situações de totalismo ideológico, o mundo experiencial está nitidamente dividido em puro e impuro, em absolutamente bom e absolutamente mau. Os bons e puros são representados por aquelas ideias, sentimentos e ações consistentes com a ideologia e política totalistas; qualquer outra coisa pode ser relegada aos maus e aos impuros. Nenhum julgamento imune está imune à avalanche de fortes julgamentos morais. Todas as “impurezas” e “venenos” contribuindo para o estado existente de impureza devem ser esmiuçadas e eliminadas. Subjacente a esta exigência, a suposição filosófica é que a pureza absoluta é atingível e que qualquer coisa feita a alguém em nome desta pureza é em última instância moral. Entretanto, não se espera, na prática, que a perfeição seja alcançada. Se nem esse paradoxo pode ser descartado apenas como um meio de estabelecer um alto padrão ao qual todos podem aspirar, é aqui que a reforma do pensamento dá testemunho de suas consequências mais malignas: ao definir e manipular os critérios de pureza, e então motivando uma guerra total contra a impureza, os totalistas ideológicos criam um estreito mundo de culpa e vergonha. Isso é perpetuado por um ethos de reforma contínua, uma exigência que se esforça permanentemente e dolorosamente por algo que não apenas não existe, mas que, de fato, é estranho à condição humana. Com isso, a demanda por pureza cria um ambiente permeado por culpa e vergonha, no qual alguém espera receber punição, resultado da relação de culpa com seu ambiente.

No mesmo texto de A Arte da Seita Política, também falamos do “processo vicário”, que faz alguém sentir prazer por um outro que realmente está tendo o prazer de fato. Como seria? É fácil ver isso funcionando quando alguém vibra pelo gol de seu time favorito. Porém, quem ganha milhões por gol feito é o atacante do time. O torcedor não ganha nada. Mesmo assim, ele vê seu nível de testosterona aumentar tanto quanto o jogador que vai meter a mão na grana. Isso acontece pelo processo vicário.

Assim, em cenários assim encontramos um viés da mente – processo vicário -, um padrão típico das seitas – demanda por pureza, que também pode ser usado fora das seitas, embora nesse caso existam bons indícios de que essa guerra fratricida da extrema-direita contra os militares tenha motivação ultra sectária dos primeiros – e um truque avançado pela militância: a falsa pose de “detentor da agenda“. Obviamente, tem vários militantes que realmente acreditam nisso. Outros dão risada e sabem que é 100% papo furado. Quase todos ganharão apenas aumento de testosterona. Já uma parcela bem reduzida pensa em coisas como verbinhas na SECOM, carguinhos diversos uma série de benefícios e o que valha.

Preste atenção nos três componentes:

  1. Viés da mente (processo vicário)
  2. Padrão (demanda por pureza)
  3. Pose falsa  de “detentor da agenda”

Com o item (3), o sujeito pode intimidar os outros ao redor ao dizer que está numa “demanda por pureza”. Alguns membros das maltas acreditam sinceramente em (3) e, é claro, outra parte está fingindo. Geralmente, o discurso vem num formato assim:

Como você pode ficar contra o presidente? Se este general está sendo atacado, é porque ele não ficou calado. Devia ter se limitado a falar apenas o que lhe fosse autorizado. Mas ele não ficou em seu lugar e não atendeu à agenda do governo. Você é contra a agenda, hein? Hein? Pessoas que agem assim são falsas e merecem ser chutadas mesmo. Você segue a agenda? Ou não? Hein? Hein?

Esse é dos discursos mais leves. Todavia, é completamente falsa a afirmação de que o sujeito representa a agenda, pois há uma diferença gritante entre a “política” dos tempos medievais – lembre-se da época das monarquias tradicionais – e a política após a Revolução Gloriosa, a Revolução Americana e a Revolução Francesa. Não foi algo tão simples na Revolução Francesa, mas, aos poucos, foi sendo criado um sistema verdadeiramente representativo, como já havia na Inglaterra e nos Estados Unidos. Isso depois se propagou por todo o Ocidente e posteriormente para outros continentes.

Antes da derrubada das monarquias tradicionais – não confundir com as monarquias constitucionais que ainda existem em alguns países e, no máximo, possuem reis com pouco poder -, a coalizão que podia meter a mão na grana do cofrinho estatal era reduzida. Haviam os papas, que sustentavam os reis, mas geralmente não passava de um número muito reduzido de pessoas. Com a queda das monarquias tradicionais, surgiram as ditaduras tradicionais e as democracias, que são sistemas com coalizão ampla de pessoas. Para quem não entendeu a diferença, vale a pena assistir o vídeo Rules for Rulers – com base na teoria do seletorado e que é indicado pela sexta vez por aqui – mostrando como funcionam as ditaduras e democracias. São quase 20 minutos bem gastos, mas é bom ativar as legendas em português:

Como se nota, o rei que assume o trono, numa democracia, se alinha com uma base ampla, que representa uma multitude de interesses. Logo, a agenda de um presidente democrático é baseada numa negociação com uma base ampla. Conforme matéria de 20 de janeiro de José Fucs, no Estadão, essa seria a divisão de uma das partes das base (cerca de 80 pessoas):

Observe como existem seis grandes blocos. Se isso representa uns 20% de toda a base, é coerente falar em cerca de 400 a 500 pessoas prestes a se dar bem com benefícios diretos. É claro que os pagadores de impostos ganham algo (ou perdem), mas o que está garantido – pela teoria do seletorado – é que eles paguem impostos para bancar a base. Se a base é ampla, significa que os líderes dependem da produtividade. Isso tende a gerar um ambiente com mais liberdade. A democracia geralmente se dá em um sistema de base ampla, como você deve ter visto no vídeo.

Se as bases são amplas, é apenas uma mentira bem disfarçada sair dizendo que um desses grupos “representa a agenda”. Na verdade, cada um dos grupos representam pedaços da agenda. A ideia de que um grupo específico representa a agenda é coisa de republiqueta ditatorial (mas falamos daquelas republiquetas bem chinfrins, pois até na China Mao e Lin Shaoqi viviam tretando por divergência em relação à Grande Fome). Ademais, em várias monarquias tradicionais era bem possível um sujeito ou um grupo alegar “representação da agenda”, pois o número de bocas a alimentar na coalizão que sustenta o rei – ou seja, a turma das boquinhas – era bastante reduzido. Justamente por isso, o nível de vida do povo era terrível.

Quer dizer: um sujeito que diz “representar a agenda” está simplesmente mentindo quando se trata de uma coalizão ampla. Isso geralmente é uma questão de debate interno nos sistemas civilizados. Mas agora a extrema direita se manifesta por milícias virtuais que fazem linchamento virtual de outras pessoas DA BASE. Sim, eu sei, se a política petista parecia de baixo nível às vezes, a tropa da direita extremista abriu um alçapão no fundo do poço, parecendo até essas galinhas correndo atrás do garoto no vídeo:

Detalhe: vale repetir que a maioria dos que participam dos linchamentos não ganham nada. No máximo, a ampliação de testosterona. Os que ganham dinheiro são alguns poucos. Por isso, se diz que é quase como “gozar com o pau dos outros”. Mas quem já leu Gustave Le Bon sabe que eles ficarão muito putos se a ilusão dos que acreditam seriamente na “representação unificada da agenda” for quebrada.

Outro ponto importante: como um truque tão tosco pode ter sido implementado?

Imagine que num governo a base tenha uma ala extremista que age feito puxa-sacos, bem na linha daqueles dos tempos das antigas monarquias. Era uma época em que o babaovismo era feito não só para o rei como para seus filhos (que o sucederiam). Às vezes a coisa é tão gritante que os membros das milícias virtuais chegam a dizer em público que “o príncipe é o máximo” ou que “a família vale mais que tudo”. Detalhe: estamos em uma democracia, na qual votar no pai não é o mesmo que votar no filho. Mas se você mostrar-lhes o absurdo do que falaram, provavelmente vão fingir que não ouviram.

Quem sabe não se utiliza um modelo estilo “Rasputin -> Czar Nicolau II”, visto na Rússia? Na existência de um guru que tenha adquirido influência sobre o czar (ou os filhos do czar), dá para fazer uma festa. Aí o jogo de fingir que é o “dono da agenda expurgando os impuros” pode ser muito, mas muito lucrativo, mesmo que ainda seja para poucos. Mas a maioria fica só com o processo vicário mesmo. Evidentemente que os participantes da seita possuem muito mais padrões e vieses explorados. [Quem não leu a série A Arte da Seita Política pode fazê-lo aqui]

Claro que os organizadores desse tipo de patranha vão dizer que “não possuem interesse” ou querem “só o bem do país”, mas aí é acreditar em ovo sem casca.

Por fim, para o truque funcionar melhor, no caso de existir um guru – segundo a mídia parece que existe; o que você acha? – é aí que entra o fingimento de que estamos vivendo há 500 anos atrás, no tempo das monarquias tradicionais, época em que até seria factível dizer: “o rei mandou fazer isso, obedeça, pois eu trago a mensagem dele”. Em qualquer democracia civilizada este papo significa uma coisa só: embuste do pior tipo.

Ou seja, pode até ser que muitas das babadas de ovo praticadas por massas sectárias em direção ao rei e seus filhos sejam derivadas das intenções de gente muito esperta usando sua influência com o próprio rei e os filhos. É por isso que muitos do lado de fora acham ridículo ouvir expressões como “eu sei o que o presidente quer e, por isso, me ouça e me atenda” ou “quem não calar a boca diante do presidente vai se dar mal” – só porque o espertinho é puxa-saco dele, claro -, mas eles agem confiantemente porque milícias virtuais podem adotar tons intimidatórios.

Quem sabe os posts de figurinhas deste naipe sejam apenas coincidência, certo?

Talvez seja coincidência, não? E se não for, pode ser que seja o processo vicário. Mas a pose é sempre nessa linha, geralmente mais açulando maltas contra a própria base do que contra a esquerda. Como já disse, neste caso meu papel é analisar os padrões. Se tem gente adotando narrativas bizarras, elas podem ser identificadas.

Em outras palavras: tudo dá a impressão de que os padrões de comportamento já podem ser observados em campo. Se isso for verdadeiro em qualquer mapeamento feito, não deve soar muito agradável para pessoas como General Hamilton Mourão, General Santos Cruz e General Villas Boas descobrirem que por trás das campanhas de linchamento contra eles podem ser que existam interesses bem mesquinhos. Pode ser que já os tenham percebido. Como vimos aqui, os generais em questão possuem boa reputação. Já as milícias virtuais jogam no estilo “boca do lixo” na luta por suas posições, o que tem causado nojo nos outros blocos da base.

Finalmente, já podemos ter um resumo. Um bom mapeamento pode clarear o tipo de gente que estimula essa extração de linchamento virtual. Se essa não é a única razão, é uma das mais evidentes. Também é evidente que nem todos seus organizadores estão atrás de carguinhos. Alguns buscam prestígio. Outros acreditam mesmo. Vários tantos são membros de seita. Há uma boa chance de encontrar até guru no time dos puxa-sacos do rei e dos filhos. Como tudo soa ridículo, a intensidade no uso de milícias virtuais ajuda o pessoal a seguir sem muito questionamento, ao menos no lado de dentro. Do lado de fora, podem existir pessoas questionando.

Tome cuidado para não comprar gato por lebre: em democracias não existe isso de “ajoelhe-se perante o rei” (pois falamos de coalizões amplas que representam vários interesses) e nem uma tropa fechada de puxa-sacos que “representa a voz do rei”, até porque, conforme a teoria do seletorado, um líder representa uma coalizão. Se não for assim, pode ser que tenha gente pensando em corromper a democracia. E isso é assunto para outro texto…

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1 comentário em Babaovismo medieval é parte da tara das milícias virtuais?

  1. “O torcedor não ganha nada. Mesmo assim, ele vê seu nível de testosterona aumentar tanto quanto o jogador que vai meter a mão na grana.”
    Excelente!
    Durante as eleições, questionei – sempre recebendo xingamentos dos mais variados – eleitores do Bolsonaro a respeito do tanto de dinheiro público que este sujeito já recebeu em tantos anos como parlamentar e a alta aposentadoria de ex militar que recebe desde os 33 anos, sem falar no fato de que todos seus filhos são muito bem assalariados com dinheiro público, isso porque na época dessas discussões nem havia ainda vindo a tona a revelação de que os filhos do Bolsonaro desviavam dinheiro público de funcionários fantasmas, um crime feio contra o contribuinte.
    A reação dos eleitores do Bolsonaro diante disso era se ofender com quem está questionando e não com o fato do seu dinheiro estar sendo gasto para manter uma vida de luxo dessa família, enquanto a sua própria está na merda.
    Xingamentos eram o nível mais baixo com o qual reagiam. Gozavam com o pau dos outros. É como a pessoa viciada em pornografia, que não faz sexo mas goza assistindo os outros fazerem. Não possuem dinheiro, estão bancando a vida de luxo dos Bolsonaros, e ficam super contentes com isso, mais preocupadas com o luxo dos Bolsonaros do que com o próprio conforto.
    Essas pessoas merecem mesmo o governo que tem. Meus votos de que a vida deles piore muito, muito durante esse governo. Assistirei com sadismo.

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