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A relação bizarra entre liberais e autoritários precisa ser revista…

Que as manifestações do dia 26/5 tiveram tons autoritários ninguém que tem honestidade intelectual ou ao menos consciência política duvida.

Claro que vimos pessoas dizendo que era “pelas reformas”, mas fica bem claro que uma manifestação chapa branca a esta altura do campeonato significava passada de pano para um governo que tem permitido um verdadeiro surto de linchamentos públicos dentro de sua base.

Dos três poderes, o único que está mais fazendo treta do que buscando governabilidade é o Executivo. Sair em manifestação para transferir a responsabilidade ao Parlamento é de um cinismo sem igual.

Já ouvi: “Ah, não importa se são os autoritários que chamaram; eu fui por outro motivo”. Sim, todo submisso a autoritários já apresentou explicações deste tipo. Não serve. Se fosse por outro motivo, melhor seria marcharem sem a presença dos autoritários em outra data.

Voltando ao caso da ingovernabilidade vinda do Executivo, vejamos.

Tivemos o caso Bebianno, que foi humilhado por MAVs. Ouvimos algo da liderança para impedir isso? Não.

Tivemos meses de linchamento público contra o vice Mourão. Resultado: medalha para o agressor. Isso aqui não é apenas mera humilhação. É sadismo puro por parte da liderança.

Pior ainda: tivemos a humilhação pública do General Santos Cruz. Novamente: nada foi feito por parte da liderança.

Isso sem contar os ataques a outras pessoas da base.

Isso é buscar governabilidade? Por favor…

Mas nada disso se equipara às humilhações lançadas contra os liberais.

O pior aconteceu com o MBL, que esculachou – e com razão – as manifestações de 26/5. [No próximo post, com base na teoria do seletorado, mostrarei porque essas manifestações foram autoritárias, e, novamente, com passada de pano por parte de liberais]

Como resultado, foram atacados de forma pouco civilizada por milícias virtuais. Em vez de dobrar a intensidade dos ataques, o MBL recuou. Nisto, o sangue das maltas se atiçou de vez. Se tivessem retaliado (expondo a perversidade da ala autoritária), talvez teriam feito o ânimo sádico destas milícias diminuir, pois eles só pensam na relação “esforço X dano”. Se o dano é demasiado para o esforço feito, repensam. Se não sofrerem muito dano, fazem o que quiserem. Belo sistema moral, não?

Outro deputado que respeito, Marcel Van Hatten, chegou ao ponto de ir em uma das manifestações. Em troca, foi humilhado pela ala autoritária. No Twitter, foi um show de esculacho para cima de Van Hatten. Pergunta: a troco de quê?

Gustavo Nogy comentou a situação bizarra em que nos encontramos:

Em complemento, Madeleine Lacsko fez esse excelente post hoje: Por que tantos liberais estão pedindo desculpas a autoritários?

Realmente, isso está muito complicado, e já leva a questionamentos. A pergunta é: por que estão tolerando tanto? Tem alguma coisa de errado aí? É por chantagem? É por ameaça? Ou algo mais? Essa submissão tem que ser explicada…

Se o liberalismo historicamente é conhecido por rejeição a autoritários, como é que agora virou submissão a eles? Como é que muitos se tornaram passadores de pano para o autoritarismo? Pior: como é que muitos se tornaram ainda mais submissos depois de serem humilhados por eles? O ser humano normal não é assim, a não ser que tenha medo de morrer (como Proculus, que veremos a seguir). Tem algo que precisa ser estudado aí.

Uma explicação para isso é que os autoritários foram tão tolerados pela ala democrática da direita (especialmente os liberais) que entenderam que podem fazer tudo o que quiserem. Criamos, então, seres humanos sem noção de limites. Belo serviço, não? Parabéns aos envolvidos.

Sem essa noção de limites, começam a se divertir com o sofrimento alheio. Normalmente, como em todas arquiteturas do sadismo, escolhem suas vítimas preferenciais: exatamente aquelas que apanham e não reagem.

Observem como foi com os generais, que, de uma forma ou outra, retaliaram os ataques. Por isso, os autoritários bateram e depois recuaram. Com os liberais, a conversa é diferente: “Ah, bateu? Então bate mais. Tudo bem”. E ainda vão pedir desculpas?

Bem, eu não sou apenas liberal. Sou liberal conservador. Liberal quanto à prioridade na luta contra a tirania e conservador quanto ao ceticismo sobre o ser humano.

Mas, como liberal, tenho ficado com vergonha do que estou assistindo. Alguns casos chegam a ser uma versão virtual do que foi a relação entre Proculus, um dos principais soldados romanos, e o tirano Calígula.

Tanta submissão ao tirano gerou um interesse especial do último por humilhá-lo ao extremo, e assim o fez na noite de núpcias de Proculus e sua esposa Lívia. A cena é retratada no filme “Calígula”, de Tinto Brass, dirigido em 1979. Já aviso que a cena é para maiores de 18 anos (e que possuem estômago forte):

Aos liberais que acham que ficar encenando o papel de Proculus é algo que lhes trará mais respeito, fica a dica: os sádicos, em geral, tem menos respeito por aqueles que se submetem. Mais ainda: acham ainda mais vergonhosos aqueles que se submetem de todo.

Prestes a morrer, Proculus diz: “Sempre lhe fui fiel”. Calígula diz: “Esta é sua traição”.

Enfim, esta é a situação em que vivemos: a estrutura interna da direita hoje só pode ser explicada pelo estudo do sadomasoquismo  na política.

Evidentemente, tem gente que está trocando vidas humanas por likes, followers e votos. Mas não seria melhor reagirem e – após passado um período de uns 3 a 6 meses de confrontos – finalmente adquirirem respeito?

Para piorar, a submissão de influenciadores e políticos de direita democrática – especialmente de tons liberais – está incentivando os autoritários a partirem para cima dos que estão fora do poder

Quer dizer: para cada liberal que se deixa humilhar em público, mas leva cargos, likes e followers, existem aqueles que não possuem cargos e verbas, mas estão sendo atacados por isso. E, aí, precisam se defender sozinhos, pois seus líderes morais pouco fazem. Pior: incentivam a selvageria por causa de sua submissão a la Proculus.

Já existem exceções, evidentemente. Mas a postura da liderança liberal tem sido uma completa decepção. Ora, se estão acostumados a apanhar de autoritários (especialmente da ala olavista), então a tendência é que capitulem para suas propostas.

É também por isso que hoje já podemos dizer que a direita no poder é autoritária, em essência. Por parte dos autoritários, eles estão seguindo seu fluxo. Por parte dos democráticos, por terem muitos liberais entre eles, a submissão os faz passarem pano para os autoritários. Esta relação sadomasoquista não apenas traz risco a vidas humanas. Traz riscos à democracia.

Ei, liberais, querem pedir desculpas? Uma sugestão que já vi seria um movimento “mea culpa” sobre isso. Em dezembro eu já havia escrito o texto “A direita errou ao sucumbir demais a Olavo é agora é tarde”. Que tal os liberais fazerem “mea culpa” por não terem defendido as vítimas de linchamentos virtuais dentro da direita?

Então peçam desculpas por terem passado mão para os autoritários por tanto tempo e abram os arquivos. Vai fazer bem para a consciência de muita gente.

Está na hora de botar o dedo na ferida nesta situação humilhante em que foi lançado o liberalismo no Brasil. Diante daqueles que tiveram a coragem de derrubar monarquias absolutistas no passado, isso que estamos vendo é quase o oposto.

Hora de botar a mão na consciência. Enquanto é tempo.

Twitter: https://twitter.com/lucianoayan

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5 comentários em A relação bizarra entre liberais e autoritários precisa ser revista…

  1. Os dinossauros eram muito tediosos. Então o diabo criou a raça humana…

  2. Concordo com você, Ayan. É muita covardia de ditos liberais não reagirem. Que reajam por si mesmos ao menos. Ou são mal intencionados que querem algo em troca? Se sim, são muito burros.

  3. Porra, o bicho pegando e você largou mão. Espero que não tenha sido forçado a isso, seja pelas circunstâncias, seja por alguma ação de alguma força maior. Abraço.

  4. Eu o sigo no Twitter há anos. Não sou extremista ou bolsominion. Num diálogo normal, fui bloqueado hoje. Vc anda muito sensível. Bloquear no lugar de discutir é ridículo. Não bloqueio nem stalinistas nem bolsominions, muito menos moderados. Não quero viver em uma bolha e muito me admira que vc o faça.

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