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A estratégia de Bolsonaro é inteligente e por isso deveria ser barrada

Em 13/03 fiz um texto duríssimo sobre a teoria do seletorado, que deu o que falar e dizia algumas verdades doloridas. Assim, é preciso dar sequência. 

Tenho ouvido o seguinte: “é absurdo Bolsonaro seguir na indicação de Eduardo Bolsonaro”. Não. É estratégia inteligente. Se conseguir, quebra o espírito das pessoas e escala no autoritarismo. Aumenta chance de se segurar a custo menor e causando mais dano ao povo. Por isso é preciso impedi-lo.

Para mim, este é o flagelo do paternalismo na análise política, uma coisa criada por liberais e conservadores clássicos. Eles tratam conflitos de interesses como se fossem conflitos de entendimento. Eu sou liberal/conservador, mas discordo do uso do filtro paternalista

Quando reagimos diante dos conflitos de interesses expostos, deixamos de ficar com essa “surpresa”, que pode soar até arrogante. Tratamos de vidas humanas e possível perda da democracia. Bolsonaro faz o que tem que fazer. E quem quer a democracia tem que impedi-lo.

Se alguém tiver alguma dúvida, recomendo prestar atenção nesse slide, que foi utilizado numa palestra ontem, onde precisei dizer coisas não muito agradáveis, mas que não podiam ser refutadas.

Prestaram atenção nesses 3 senhores (Ne Win, Papa Doc e Yayha Jammeh)? Por que ficaram no poder tanto tempo? Simples: tinham que negociar com poucos para ficar no poder. Cerca de 10% de pessoas na comparação com o que seria numa democracia.

Pagando tão poucas pessoas, isso significa que eles tem como pagar para ficar no poder MESMO destruindo o nível de vida das populações. Aí basta usar bens privados e não bens públicos.

Numa democracia é o oposto. As negociações ocorrem com muitas pessoas. Ou seja, em vez de pagar 50 pessoas é preciso pagar 500. Deste momento em diante, bens privados não são suficientes. É o alto NÚMERO de pessoas com quem se negocia que mantem uma democracia. E é principalmente isso que os força a melhorar o nível de vida da população.

Se o nível de vida das pessoas melhora, então o custo para essa base ampla segurar o líder no poder é aceitável. Mas se o nível de vida das pessoas cair muito, o custo político para manter o líder no poder se torna inaceitável.

TODO governo se segura com grana vinda do erário público. É regra sem exceção. Nas democracias se usam mais bens públicos que bens privados e a base é grande. A popularidade conta. Baixa popularidade aumenta o preço. Se o governante não conseguir pagar, cai.

Por que Dilma sofreu impeachment? Por que ia custar muito $$$ para segurá-la. O custo político estava alto por causa da impopularidade. E para nomeações bizarras depois? Depende do $$$ e do custo político para nomear. Se não conseguir pagar, não leva. Esta é a lógica da sobrevivência política. Não tem a ver com Bolsonaro, Dilma, Collor, Bush, Clinton, etc. É o ser humano que é assim.

Se ainda restam dúvidas, recomendo – mais uma vez – o vídeo “Rules for Rules”, que apresenta uma introdução à teoria do seletorado.

Em suma, se o objetivo é manter a democracia, vale a pena fazer o voto dos senadores custar tão caro que não valerá a pena para eles colocarem Eduardo Bolsonaro na embaixada dos Estados Unidos.

Caso contrário, é fácil que tão logo Eduardo Bolsonaro seja colocado seja possível ampliar o uso de bens públicos como bens privados. Ficará bem mais fácil atingir a democracia em cheio.

Se Eduardo Bolsonaro estiver como embaixador, pode ficar mais fácil combinar uma “guerra barbante” contra a Venezuela, cenário ideal para retirar direitos de cidadãos brasileiros aqui e corromper a democracia. Se isto acontecer, começa a ficar mais barato para Jair Bolsonaro permanecer no cargo, mesmo danificando o nível de vida da população.

Isso não é algo contra ou a favor de Jair Bolsonaro. É sobre a natureza humana. Tem a ver com a correlação de forças na base. Se o setor autoritário olavista – disposto a correr mais riscos – fala mais alto e o setor democrático se cala, então eles terão que aproveitar suas chances. Estão na estratégia do “tudo ou nada”.

Se o setor autoritário for vencido, obviamente Jair Bolsonaro terá que retornar a um programa democrático. Hoje, a opção dele é o programa autocrático, exatamente pelo fato de que o setor autocrático está dando as cartas.

Enfim, a estratégia de Jair Bolsonaro é inteligente. Mas são exatamente as estratégias autocráticas inteligentes que devem ser barradas. As estratégias burras caem de maduras.

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2 comentários em A estratégia de Bolsonaro é inteligente e por isso deveria ser barrada

  1. Então, resumindo, você afirma duas coisas:a) Bolsonaro vai prejudicar o povo; b) o toma-lá-dá-cá garante a democracia. Não concordo com nenhuma das duas afirmativas.

    • Tudo bem a discordância. Porém, é preciso dar um embasamento teórico. Aliás, sem toma-lá-dá-cá o Jair não consegue botar o filho como embaixador.

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