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Qual o momento certo para Jair tentar a autocracia?

Com completa vergonha do que a direita (no poder) se tornou, creio que é hora de abordar um cenário de quando seria ideal para Jair Bolsonaro tentar a ruptura para a autocracia.

Antes de tudo, para quem ainda não viu, é bom assistir o vídeo “Rules for Rulers” (ativem as legendas), que fala da teoria do seletorado:

Agora, vamos pensar em “blocos” da base, considerando uma democracia com cerca de 500 pessoas. Os ciclos 1, 2, 3, 4 e 5, abaixo, seriam trimestres.

Então teríamos no primeiro trimestre o setor autocrático com uns 15% mas competindo com outros setores democráticos (alguns com mais posições). Este setor autocrático é composto pelas milícias de linchadores virtuais, os sectários e coisas do tipo.

Tudo o que essa gente faz é atacar os setores democráticos, que, de forma oportunista, optam só pelos carguinhos mas não dão a mínima quando alguém de um outro setor democrático toma surras. Por exemplo, quando Moro é humilhado dentro da base, alguém de outro setor não liga. Quando um general é linchado, um liberal-econômico (risos) não liga. E aí o setor sectário/autocrático sempre faz a festa.

Alguns exemplos. Na demissão de Bebianno, tivemos a requisição vinda por parte dos sectários. Para que ocorresse a demissão de Santos Cruz, a mesma coisa. Mourão foi linchado e hoje tem medo de abrir a boca. Agora vemos o aparelhamento das instituições e o esmagamento de Moro. E isso não vai parar, mas aumentar, enquanto os democráticos começam o torneio para ver quem é mais oportunista e rastejante. Provavelmente isso acontece também por já terem sido linchados publicamente e abdicado de sua dignidade. (Ei, esperem, não foi Janaína Paschoal que sugeriu que as pessoas “aceitassem o jeito de Jair” e abdicassem do amor próprio? Então vamos ver até onde aguentam jogar fora o amor próprio, certo?)

É claro que nesse cenário de “freak show” o setor autocrático vai aumentando as posições e isso se reflete nas declarações cada vez mais isolacionistas de Jair Bolsonaro. Como a correlação de forças na base vai pendendo para os autocratas, então o que é que Jair tem que fazer? Ora, é simples: ele tem que escalar na baixaria, pois isso aumenta sua dependência da base autocrática, que, em contrapartida, se aproveita do aumento de seu poder de barganha.  E você pensou que Kurt Lewin criou sua fórmula da dinâmica social – C = f[P,A], onde o comportamento de um indivíduo ocorre em função de sua personalidade e do ambiente encontrado – em 1947 apenas para brincar?

Não poderia ser diferente: um líder age conforme a correlação de forças na base. Se as alas democráticas simplesmente não se importam em segurar a democracia, então os autocráticos tem mais é que se importar em implantar a autocracia o mais rápido possível. Hoje o setor “democrático” da direita não serve para mais nada. No máximo como “fornecedor de recursos”, que pessoas como Recep Erdogan também tem. Não há muito de liberalismo nisso.

Alguém dirá: “Ah, mas se juntar os outros democráticos ainda dá mais que os autocráticos”. Claro que sim, mas eles estão fragmentados e com baixo poder de barganha. Ainda por cima podem ser cooptados. Observem que os evangélicos que entram são apenas os que bajulam os autocráticos. Neste ritmo, creio que a partir de janeiro já dá para o setor autocrático ter 30%.

Numa ruptura, dá para tentar reduzir de cerca de 500 com quem o líder (em média) negocia para uns 400. Isso forçaria o líder a tirar espaço de democráticos, mas não tirar tanto dos autocráticos. Nessa situação, já poderíamos falar em cerca de 33% a 34% para os autocráticos. Com um pouco mais de cooptação, dá para fazer uma autocracia tranquila estilo Hungria ou Turquia.

Na fase seguinte, o líder já poderia deixar de se preocupar tanto com a economia (apenas o suficiente para segurar o líder), investir em repressão e censura de mídia, principalmente para maquiar os resultados. Mas é preciso ter cuidado, pois isso é uma chance e não uma certeza. Mas a teoria do seletorado diz que é preciso 2 de 3 condições para tentar a ruptura: (1) ambiente de crise, (2) riqueza pouco dependente dos cidadãos, (3) pessoas com apetite por riscos.

O item (2) não está disponível. O item (1) pode ser criado a partir desse ambiente de geração de crises e o item (3) está disponível em quantidade suficiente. O alto apetite a riscos é essencial, uma vez que tão logo exista uma redução de base não é certeza de que alguém esteja lá. É por isso que a altíssima disposição de riscos dos sectários – que topam qualquer baixaria – é fator essencial para que Jair possa pensar na autocracia.

Vamos de novo, sobre riscos, para não existir problema de entendimento. Se existe uma base de 500 pessoas e você está nela, então o cenário de estabilidade aumenta suas chances de permanecer ali. Se há uma ruptura para uma tirania sutil (tipo Venezuela, Hungria ou Turquia) e essa base perde, digamos, 100 posições, agora sobram 400. Isso significa um aumento de risco de que você não esteja lá. Logo, para impulsionar a ruptura é preciso de um bom número de pessoas dispostas a correr esse risco (ou seja, com alto apetite por riscos). A subida de pessoas de baixíssimo nível – sem qualquer base social, como influenciadores de Internet ultra sectários – fornece essas pessoas que querem ver o circo pegar fogo.

Mesmo assim, não é nada garantido. Mas quais os ganhos se ele conseguir? Imagine não ter que se preocupar tanto com a economia e até utilizar um ambiente de alto desemprego para perseguir seus opositores? Imagine poder ficar no poder mesmo sem ter que garantir um bom nível de vida para os cidadãos? Para um líder, isso é ótimo, desde que tenha gente “da pesada” (com alto apetite por riscos) e o clima propício para tal.

Outro cuidado: se essa chance de conseguir “levar tudo” é pequena, mas factível, então é preciso escolher o “momento do salto”. Geralmente a janela de oportunidades para tentar a ruptura é curta e dura uns 3 meses. Os próximos meses devem ser emocionantes. Se os democráticos seguirem fazendo o jogo do avestruz, ainda podem continuar se auto iludindo e dizendo, a cada vez que ele der uma declaração antissocial: “Ah, mas será que Jair não aprende?”. E, no fundo, Jair vai rindo por dentro: “Eles realmente ainda não entenderam o jogo ainda?”. Pode até ser que alguns democráticos tenham entendido a dinâmica, mas feito “bons negócios”, mas aí é até melhor deixar pra lá…

Sejamos francos: a direita autocrática quer jogar o jogo de bater e a direita democrática o jogo de apanhar. Este circo vem desde o começo do governo e não parece que vai parar tão cedo. Faltou à direita democracia a menor consciência política. Desse jeito, é moleza para um autocrata cooptar essas pessoas, que “preferem não ver” a derrocada da democracia.

Para a direita, as coisas podem se tornar muito degradantes e isso vale tanto para os autocráticos como para os democráticos. Chega a ser vergonhoso que o jogo político “de direita” hoje seja só isso. Não se esqueça da luta de Eduardo para a posição de embaixador. Isso vai ter custo para a democracia, embora os oportunistas não queiram falar do assunto. Alguma surpresa na falta de disposição de falarem do assunto?

Tudo isso é algo que nem petistas tiveram coragem (ou condições) de fazer? Sim. É mais degradante? Claro que sim. Nem há mais a desculpa esfarrapada de fazer o jogo de cena para dizer que “com o PT seria pior”. Isso porque as alas democráticas das bases esquerdistas – que chegaram a incluir centristas – não seriam tão oportunistas quanto as alas democráticas da base direitista. Detalhe: vamos jogar fora o “duelo entre anjinhos e demônios” na política. Autocráticos e democráticos existem em qualquer base de governo. A diferença é que até agora os setores democráticos controlaram os autocráticos enquanto, em um governo de direita, os democráticos estão fazendo papelão.

Mas ainda há jogo. A chance é de que Bolsonaro, quando tiver que tentar a ruptura, capote e se ferre por precipitação. Mas se isso acontecer é bom que fique a lição: a vergonha histórica deve ficar dividida tanto entre os setores autocráticos como democráticos. Especialmente para estes últimos, ficará a imagem da covardia e do oportunismo barato. Pelo menos os esquerdistas e centristas democráticos, durante os governos do PT, não deixaram a democracia sofrer tantos riscos assim. Os esquerdistas democráticos se valorizam. Os direitistas democráticos se vendem barato demais. Claro que isso não vale para aqueles poucos direitistas rebeldes democráticos que, do lado de fora da base, resistem.

Certamente uns ainda dirão: “Ei, mas e a corrupção no governo petista?”. Sim, isso é verdade. Mas espere a extrema direita conquistar uma autocracia que a tendência é ver a corrupção ir para a estratosfera. O jogo está apenas no começo. Só que, infelizmente, a busca alucinada pela autocracia está mais avançada do que nunca esteve em governos anteriores. Uma pena que tenham escolhido por esse caminho. Eu tenho vergonha de ter colaborado para esta aberração chegar ao poder.

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