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Seis papéis essenciais para obter resultados na guerra política

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Ao estudar o material de esquerdistas, vi que vários deles definiam funções para atuação na guerra política. Gramsci definiu seu intelectual orgânico e Alinsky a figura do organizador. Isso tem funcionado para a esquerda, mas não para a direita, provavelmente por que os esquerdistas tem uma “bagagem” maior de jogos políticos, e fazem isso desde a época do ronco.

Por isso, segue aqui um modelo que é apenas uma “tentativa” de mapear os papéis (ao invés de funções) essenciais para guerra política na visão da direita. Não se pode confundir papel com pessoa, pois uma pessoa pode executar mais de um papel. O conceito de um papel ou mais associado(s) à(s) pessoas tem sido extremamente útil no mundo corporativo. Metodologias como ITIL, Six Sigma, Cobit, PMBOK e outras fazem uso de papéis, ao invés de cargos, ou pessoas.

Antes de definir os papéis, deixe-me apresentar 3 contextos, que são:

  • Pressão
  • Atuação
  • Impacto

Os resultados, na guerra política, são definidos por aqueles que estão na esfera de atuação, enquanto os que estão na camada de pressão devem sofrer pressão daqueles que estão na camada de atuação. Portanto, políticos profissionais, juristas e organizações aliadas com o governo, nesse modelo, devem sofrer pressão dos grupos de atuação. Por sua vez, a terceira camada, de impacto, envolve aqueles que são essencialmente impactados pelos que estão na área de atuação. Na camada de impacto, está a população em geral e as organizações.

Deve ter ficado claro que tudo é decidido a partir da camada do meio, de atuação, que são os que agem no contexto da guerra política.

Estes são os 6 papéis da camada de atuação:

  1. Analista tático
  2. Investigador
  3. Psicólogo
  4. Intelectual orgânico
  5. Organizador
  6. Militante

Analista tático

Este é um papel essencial para a direita, pois, como a esquerda domina muito mais o jogo político (já fazem isso intuitivamente), é preciso de uma avaliação das táticas e estratégias envolvidas na política, em uma análise que tenta ser “de fora”, avaliando o que funciona e o que não funciona.

É mais ou menos como os comentaristas e especialistas em futebol. Eles podem até torcer para a seleção brasileira, mas estão avaliando o jogo com um olhar crítico, e não se furtam em dizer “O técnico Mano Menezes errou na escalação” ou “Ele acertou nisso”. As táticas e estratégias em geral, de ambos os lados da batalha, são avaliadas de forma pragmática, para avaliar o que funciona ou não. Esse é o papel do analista tático.

Investigador

Um outro papel essencial é o de investigador de fraudes do discurso adversário. Basicamente, é o usuário principal do paradigma de ceticismo político que elaborei. Ele observará as alegações do seu oponente político, encontrará falhas, e elaborará refutações de acordo com estas falhas encontradas. Um skill adicional essencial para esse papel é a capacidade de disseminar o conhecimento relacionado a essas fraudes. A criação de índices e bases de conhecimento das fraudes esquerdistas encontradas será extremamente útil para os outros papéis no conflito.

Intelectual Orgânico

Se o investigador dissemina conhecimento das fraudes encontradas, e o analista tático dissemina informações a respeito das estratégias que funcionam para cada um dos lados, ambos os papéis produzem informação para os intelectuais orgânicos e os organizadores. O intelectual orgânico, por outro lado, também dissemina conhecimento e conteúdo, mas seu foco é na comunicação de massa. Qualquer matéria de jornal, discurso na mídia, inserção ideológica em conteúdo cultural, enfim, tudo isso configuraria o intelectual orgânico. Aqui a diferença essencial: ele fala de uma forma a ser percebido pelas massas.

Psicólogo

Aqui temos uma inovação! É que, com as dissonâncias cognitivas da direita, pelo fato de que estes não estão acostumados a viver em um mundo de jogos políticos (trazidos pela esquerda), não dá para obter resultados na guerra política. É preciso tratar, por forma de diálogos, essas “travas” mentais, que minam a atuação conservadora de direita no jogo. O psicólogo é aquele que atuará de forma sutil e pacífica, com questionamentos socráticos e pontuais, dentro das organizações (incluindo redes sociais) de direita. Aguardem para breve , em um texto que dará a sequência ao post Dissonância cognitiva: por que isso tem tirado a direita do jogo político?, no qual falo de como seriam as “terapias” a serem realizadas. Notem também que a comunicação aqui não é de alguém com a massa, mas de alguém dentro de seus grupos. Em suma, é alguém contra o PT em uma comunidade que é contra o PT, alguém que é contra os neo-ateus em uma comunidade de cristãos. O objetivo é retirar as “travas” mentais, ou seja, as dissonâncias cognitivas, dos seus (e não da massa, que em geral é neutra e busca o centro), de forma que estejam aptos a atuar no jogo. Obs.: Não é preciso ser um psicólogo formado para exercer o papel, naturalmente, mas sim ter foco, dominar o questionamento socrático, ter um senso de propósito e conhecer um tanto da natureza humana.

Organizador

Um organizador é um “líder idealizador”, que faz as coisas acontecerem. Em síntese, um movimento não ocorreria se o organizador não estivesse lá. Nas organizações, eles são considerados os “champions”, os “agentes de mudança”. São os criadores de comunidades e organizações, executores de estratégias, e que assumem a linha de frente. Por seu perfil mais focado para a ação na linha de frente, são os que mais dão “a cara a tapa”.

Militante

São todos aqueles inseridos em uma organização política, e que atuem sob uma linha de comando (enfim, são orientados pelas ações acima, especialmente dos intelectuais orgânicos e organizadores), sob uma atmosfera de amizade e cumplicidade em relação aos demais membros da organização. Mesmo que o militante esteja alinhado a uma cadeia de comando, ele não o faz por coerção, e sim por motivação para lutar. Olavo de Carvalho nos diz mais: “Sem uma rede de militantes, simpatizantes e companheiros de viagem, não existe ação política. Com ela, a ação política, se não limitada por fatores externos consolidados historicamente – a religião e a cultura em primeiro lugar — pode estender-se a todos os domínios da vida social, mesmo os mais distantes da “política” em sentido estrito, como por exemplo a pré-escola, os consultórios de aconselhamento psicológico e sexual, as artes e espetáculos, os cultos religiosos, as campanhas de caridade, até a convivência familiar” (Zero Hora, 6 de março de 2004)

Os papéis em ação

É possível que alguém execute todos os papéis e não há nenhum impeditivo para isso. No modelo de Alinsky, temos apenas o organizador, e no de Gramsci o intelectual orgânico. Entretanto, eu separei os papéis para mostrar os determinados graus de especialização que um Agente de Mudança da direita poderia assumir.

Por exemplo, certa vez me convidaram para liderar uma organização que reuniria uma série de blogs conservadores. Eu declinei, pois esse seria mais o papel de um organizador. É preciso ter uma dedicação de tempo, e uma vontade de estabelecer canais de comunicação mais amplos, para executar este papel.

Foi aí que descobri que este papel não é tão adequado para mim. Entretanto, pelo meu gosto profundo por estratégias e táticas do jogo político, além da dinâmica social da batalha política, obviamente o papel de Analista Tático me serve como uma luva. Também gosto de estudar o material oponente e achar as fraudes contidas lá, portanto o papel de Investigador é outro no qual eu nado de braçadas.

No papel de Psicólogo, aí é que a porca torce um pouco o rabo, pois eu basicamente consigo elaborar questionamentos que servem a “destravar” a mente de alguns, mas não tenho tanto tempo disponível para a conversa “mano a mano” como eu gostaria. Por exemplo, suponha que um conservador de direita leia este texto e comece uma discussão:

  • Conservador com dissonância: Eu não admito que você veja o conservadorismo pensando também em guerra política?
  • Luciano: Qual o problema com isso? Me diga mais…
  • Conservador com dissonância: Conservadorismo é sobre se sentir bem consigo mesmo, seus valores, e não lutar pelo poder.
  • Luciano: Mas você reclama do poder obtido pelos esquerdistas, não?
  • Conservador com dissonância: Claro que sim! Eles estão acabando com o Brasil.
  • Luciano: Mas você não gostaria de fazer algo a respeito?
  • Conservador com dissonância: Esse é meu objetivo. E vou difundir meus valores…
  • Luciano: Mas em um mundo plural como o atual, somente difundir seus valores é o suficiente?
  • Conservador com dissonância: Pelo menos eu não abandonarei meus valores.
  • Luciano: Qual sua prioridade: focar nos seus valores, ou fazer propostas políticas para aqueles que tem valores além dos teus?
  • Conservador com dissonância: …

Não importa a resposta, e nem arrumar briga, o que importa é fazer o outro pensar, e, em contínuas sessões, alguns conseguirão quebrar suas dissonâncias cognitivas ou ao menos lidar com elas. Aí, somente aí, alguém estará pronto para adentrar o jogo político. A técnica para esta discussão é algo que eu aprecio, mas o tempo para a prática do papel de psicólogo é o que não tenho. Provavelmente no futuro eu elabore um material sobre as “terapias” que podem ser feitas. Mas não prometo nada.

Em relação ao papel de intelectual orgânico, quase todos os que publicam conteúdo são de alguma forma intelectuais orgânicos. Entretanto, alguém poderá ser essencialmente um intelectual orgânico e se basear no material produzido por outros intelectuais orgânicos, investigadores, analistas táticos e até psicólogos (aliás, se um texto é focado em uma reflexão de conservadores, é uma ação do papel psicólogo).

Organizadores precisam ter tempo disponível, além dos meios para liderar ações de massa. Líderes religiosos, representantes de associações e grupos são ideais. Grupos universitários também.

Qualquer um dos papéis acima pode executar militância, de uma forma ou de outra, pois um intelectual orgânico de uma questão, pode agir como militante em outra. Mas um militante pode focar exclusivamente na militância, sem problema algum.

Para que definir os papéis?

A maior motivação para definir os papéis é que podemos concentrar nossos esforços quando executamos ações. Se temos um objetivo, estamos tendo sucesso? A quantidade de esforço é adequada? Se não temos uma direção para o que fazemos, perdemos os filtros para analisar se temos ou não resultados.

Se o objetivo é disseminar conteúdo para a massa, um intelectual orgânico pode revisar suas técnicas de comunicação. Mas, se o objetivo é ser um investigador de fraudes, alguém poderá fazer uma auto-avaliação para ver se o seu domínio do guia de falácias e dos estratagemas do inimigo é suficiente. Um analista tático poderá fazer um self-assessment (auditoria de si próprio) para entender e conhecer cada vez mais os meandros dos jogos políticos.

Como meu foco será na análise tática e investigação (com um pouco da atuação de intelectual orgânico), eu já sei que devo me aprofundar cada vez mais em ciência política e a dinâmica social da guerra política, assim como na investigação das fraudes do oponente.

Entendo que, na fase inicial de conscientização (hoje a direita ainda está em fase de despertar), papéis como os de analista tático, psicólogo e investigador, serão vitais, pois no exemplo gritante da questão da guerra de posição nas cédulas, via ação judicial dos neo-ateus, “travou” a mente de muitos conservadores cristãos. Muitos diziam “Parece que eles não tem o que fazer…” e coisas do tipo. Essa ingenuidade abominável é um sinal de que em termos táticos, muitos nem sequer conseguiram perceber as regras do jogo. O analista tático tem a missão de explicar as táticas e estratégicas, tanto as do lado da direita (que são quase inexistentes), como as da esquerda (extremamente elaboradas e muito bem arquitetadas), e falar a verdade nua e crua para o SEU PRÓPRIO LADO da guerra, mesmo que essa verdade seja dolorida. Junto com isso, o papel de investigador (que executo automaticamente junto com o de analista tático) se encarrega de mapear as fraudes contidas no discurso oponente.

Eu sei que meus textos, portanto, deverão ser escritos, em sua maioria, pelo perfil de analista tático e de investigador, pois essa é uma carência a ser solucinada, e esta é a atuação que mais condiz com o meu perfil.

Intelectuais orgânicos, psicólogos, organizadores e militantes poderão fazer uso do conteúdo aqui, mas, se a análise tática for frágil, a chance de erro da parte deles aumenta.

Quanto mais analistas táticos surgirem, melhor (sem esquecer que precisamos de organizadores, intelectuais orgânicos e outros). Vejamos alguns desses atores: Daniel Fraga, mesmo libertário, é intelectual orgânico. Ele produz conteúdo parcialmente útil, que ajuda a direita (embora a atrapalhe algumas vezes). O mesmo se pode dizer de Pondé e Constantino, ambos intelectuais orgânicos. Mas a parte tática de todos estes é zero. Olavo de Carvalho, como intelectual orgânico, é mais ou menos. Mas a atuação dele como analista tático é brilhante. (Aliás, devo muito a ele neste sentido, pois eu não teria pesquisado a técnica de Pânico Moral e o material de Elisabeth-Noelle Neumann, não fosse por suas dicas).  Nos Estados Unidos, Glenn Beck e Ann Coulter são intelectuais orgânicos. David Horowitz é um analista tático. Não vi um deles como um especialista em investigação de fraudes do oponente. Não há muitos organizadores, salvo em alguns think thanks, mas não organizam nada ainda. A meu ver é por que conhecem pouco o jogo político.

Com esse entendimento (e como o auto-entendimento que faço de mim mesmo, isto é, eu tenho deficiências em algumas áreas, mas vou muito bem em outras, então é melhor que eu foque aonde eu tenho mais talento), o direcionamento de esforços fica muito mais eficiente.

Quando eu escrever uma notícia comentada, que papel eu estarei executando? O de um analista tático ou de um investigador? Ou até de um psicólogo ou de um intelectual orgânico? Mas provavelmente não o de um organizador. Mas existem muitos com perfil de organizador, assim como de um intelectual orgânico puro, que poderão atuar com feedbacks do material produzido aqui. E assim sucessivamente.

Se sou focado em análise tática, não é melhor eu usar uma boa parte de meus posts com conteúdos mais rápidos, e focados no comentário de notícias, misturados aos posts que falam sobre a arte da guerra política em si e investigações de discursos do oponente? Esta é a resposta que consegui buscar em meu interior, e pude fazê-lo mais claramente após mapear os papéis acima.

E você, quais são os papéis que você acha que se encaixam ao seu perfil? (Dica: escolha no máximo 4 deles, e torne-se especialista em 1 ou 2)

Obs.: O modelo está aberto a melhorias e sugestões. Futuramente eu devo fazer um post para cada um dos papéis também.

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Angela Merkel reconhece os fatos: o cristianismo é a religião mais perseguida do mundo

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Fonte: Julio Severo

Numa palestra que deu em 5 de novembro de 2012 num sínodo da Igreja Luterana da Alemanha (Evangelische Kirche Deutschlands ou EKD), a chanceler alemã Angela Merkel recentemente provocou polêmica em toda a Alemanha.

O discurso de Angela na cidade de Timmendorfer Strand, na província alemã de Schleswig-Holstein, incluiu o comentário de passagem de que o “Cristianismo é a religião mais perseguida do mundo”. O governo federal da Alemanha transformou assim a proteção da liberdade religiosa, inclusive a dos cristãos, numa meta da política externa alemã.

O fato de que Angela selecionou de forma especial o Cristianismo desagradou aos defensores dos direitos humanos, conforme notícia da agência noticiosa alemã dapd. Wenzel Michalski, diretor do Observatório dos Direitos Humanos (ODH) na Alemanha, viu o conceito de Angela como “totalmente estúpido”, considerando que toda perseguição religiosa é errada, independente da religião. Wenzel citou os muçulmanos da Birmânia e os judeus do mundo inteiro como exemplos de não cristãos que são vítimas de perseguição.

Um representante da Anistia Internacional também viu a menção de Angela ao Cristianismo como “tola”. Jerzy Montag, um parlamentar do Partido Verde (Die Grüne), de forma semelhante julgou a avaliação de Angela como “equivocada”, considerando que qualquer categorização de perseguição entre as religiões “não é de forma especial útil para combater violações de direitos humanos”.

Heiner Bielefeldt, Inspetor de Liberdade de Religião ou Convicção do Conselho de Diretos Humanos da ONU, ecoou Jerzy ao avaliar a qualificação de Angela do Cristianismo como “de forma especial não útil”. Heiner se expressou como “muito cauteloso” com relação a tais análises quantitativas. “Números de rumores ocasionais” que indicam que há uma perseguição particularmente forte de cristãos “não têm exatidão e evidências suficientes”.

Entretanto, a filial alemã da organização internacional de assistência aos cristãos perseguidos, Portas Abertas, apoiou Angela. Um porta-voz da organização mostrou suas informações de que 80% de todas as pessoas que sofrem perseguição religiosa no mundo inteiro são cristãs, uns 100 milhões de pessoas ao todo. Volker Kauder, presidente do Partido Democrático Cristão e membro do Parlamento, também viu como acurada a atitude de Angela de dar prioridade aos cristãos como vítimas de diversificada perseguição religiosa no mundo inteiro. Para Volker, o simples ato de enumerar regiões tumultuosas do mundo como Egito, Eritreia, Iraque, Nigéria e Síria justifica a declaração de Angela. Volker colocou assim ênfase especial na situação que está piorando para os cristãos em anos recentes em países muçulmanos. O trágico destino desses cristãos, é claro, merece a atenção de outros cristãos na Alemanha.

Angela também recebeu o apoio de Alexander Dobrindt, o colega parlamentar de Volker e secretário-geral da União Social Cristã da Bavária, o partido regional que é irmão do partido nacional União Democrática Cristã. Alexander assim criticou de forma especial os membros do Partido Verde, declarando que a ênfase de Angela nos cristãos não estava de acordo com a “cosmovisão multiculturalista do Partido Verde” em que todas as culturas têm normas fundamentalmente iguais. Para Alexander, os membros do Partido Verde têm mau gosto ao quererem a celebração de feriados islâmicos na Alemanha, mas não quererem dar um centímetro de apoio à proteção dos cristãos no mundo inteiro.

As análises sobre perseguição religiosa no mundo inteiro indicam que Alexander está certo em rejeitar tais equivalências culturais. A classificação feita pela filial alemã de Portas Abertas dos 50 governos no mundo que cometem mais opressão religiosa, por exemplo, enumera quase que exclusivamente nações de maioria muçulmana como a Arábia Saudita e o Irã ou governos marxistas como China e Coreia do Norte. Muitos desses mesmos nomes aparecem regularmente entre os 17 Países de Particular Preocupação citados pela Comissão de Liberdade Religiosa dos EUA por sua repressão. Portanto, os dois maiores inimigos mundiais da liberdade religiosa em geral e do Cristianismo em particular são vários seguidores de Maomé e Marx.

Preocupações políticas práticas exigem que os líderes sempre considerem sensibilidades diplomáticas, mas Alexander, Volker e outros estão certos quando querem que tal sensibilidade não venha à custa da verdade tão necessária para a formação de políticas adequadas. Tal verdade requer, entre outras coisas, mencionar os nomes exatos das vítimas e perpetradores. Numa época em que ideias politicamente corretas estão dominando quase que o mundo inteiro, Angela Merkel, que é filha de um pastor luterano, merece elogio por sua reconfortante honestidade.

Andrew E. Harrod (pesquisador e escritor free-lance e tem um doutorado pela Faculdade de Direito e Diplomacia Fletcher e o título de advocacia pela Faculdade de Direito da Universidade George Washington)

Meus comentários

Essa notícia tem dois pontos essenciais: O primeiro deles é notar que os anti-religiosos ficam indignados com o mero fato de que alguém identifique um dado incontestável, o de que os cristãos são o grupo mais perseguido da atualidade – o ódio anti-cristão é tão grande que a mera identificação dos crimes cometidos contra os cristãos os irrita. O segundo tem a ver com o fato deles estarem sozinhos, ou seja, sem quase ninguém que os defenda a não ser os próprios cristãos.

O fato dos cristãos serem tão perseguidos (de um lado, por islâmicos, do outro, por humanistas) deve se tornar um fator de reflexão para eles. Isso tem tudo a ver com o peso político que possuem, especialmente no Ocidente, mas também com a necessidade que os esquerdistas tem de substituir a crença em Deus pela crença no estado, ou mesmo no governo global.

É importante, por outro lado, que uma constatação como essa de Angela Merkel venha de um país como a Alemanha, que no passado fez vistas grossas à campanha de difamação feita contra os judeus desde 1879. Quem já viu no que fazer vistas grossas à campanhas sujas e desleais para a definição de um grupo  étnico ou religioso como bodes expiatórios de todos os males resulta, sabe que é importante agir em defesa dos cristãos.

A defesa dos cristãos, para um ateu/agnóstico não-humanista, não significa a preferência pelo cristianismo, mas atuação no combate contra os projetos totalitários dos esquerdistas. A questão não é mais religiosa ou filosófica. É essencialmente política.

Modus operandi do FEMEN: agredir, e, quando alguém revidar, reclamar da agressão

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O vídeo acima mostra basicamente um padrão da mente esquerdista: em Paris, uma manifestante do FEMEN tenta arrancar a roupa de uma manifestante cristã (que protestava contra o casamento gay). O marido da cristã a defende, mas é agredido no rosto. As manifestantes do FEMEN são expulsas aos chutes. Daí reclamam de agressão.

Esta é a postura de um esquerdista em resumo. Agir sem limites morais de qualquer tipo, mas, quando atingido, reclamar por “justiça”.

Depois de alegações não provadas sobre “ameaças de morte”, procurador pró-humanismo cria mais uma regra a ser desafiada pela tática 4 de Alinsky

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Fonte: Notícias Terra

Procurador da República há 16 anos em Marília, interior de São Paulo, Jefferson Aparecido Dias foi destaque na mídia nacional e internacional após uma ação contra o Banco Central exigindo a retirada da expressão “Deus seja louvado” das cédulas de Real. Ele também é autor de outras ações polêmicas, como uma ajuizada em 2009 que pedia a retirada de símbolos religiosos que estivessem expostos em repartições públicas federais. O argumento proposto era o de que, apesar de ter uma população majoritariamente cristã, o Brasil é um País laico e, por isso, não poderia haver vinculação entre o poder público e qualquer igreja ou crença religiosa.

Em outra ação judicial, desta vez contra a prefeitura de Marília, Dias exigia que a cor da bandeira do município, adotada há quase três décadas, voltasse a ter a cor vermelha. Na época, o então prefeito Mário Bulgarelli, alegou que a mudança ocorreu em razão da cor do uniforme do time de futebol da cidade, o Mac (Marília Atlético Clube) e pelo fato dos prédios públicos municipais ostentarem a cor azul. Para Dias, a mudança lesava o patrimônio cultural da cidade, além do que, a população não havia sido consultada sobre a alteração. O pedido foi aceito pela Justiça e houve a troca do azul pelo vermelho.

O procurador moveu ainda duas ações contra uma das maiores emissora de TV do País. Em uma delas, a exigência era para que a emissora explicasse, durante um reality show, as formas de transmissão do HIV. A medida foi tomada depois que um participante do programa disse que heterossexuais não contraíam aids. Já na outra, Dias ajuizou uma ação civil pública para que cenas que pudessem estar relacionadas a crimes não fossem exibidas. A ação foi motivada depois que a emissora exibiu imagens de um suposto estupro ocorrido no mesmo programa.

Além de ocupar o cargo de procurador da República em Marília, no interior de São Paulo, Jefferson Dias também responde pela Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão (PRDC), com sede na capital. O mandato à frente da PRDC é de dois anos, podendo haver reeleição. Ele encerra quatro anos no comando da procuradoria no início de 2012. A escolha do sucessor será feita mediante eleições internas.

Em entrevista exclusiva ao Terra, ele fala sobre os motivos que o levaram a propor a ação, se diz católico e revela que vem sofrendo ameaças de morte.

Como surgiu essa ação?
Jefferson Dias –
Uma pessoa ateia entrou com uma representação na PRDC questionando a existência do “Deus seja louvado”. Na procuradoria, as queixas são distribuídas e, dependendo da temática, vai para a PRDC. Toda essa temática de liberdade religiosa vai para a PRDC e aí eu passo a investigar. A reclamação era só no aspecto de laicidade do Estado, um estado laico. E aí nós constatamos também que não tem uma lei autorizando, que era um pedido pessoal do ex-presidente da República num primeiro caso e, depois, um pedido pessoal do ministro da Fazenda. Então aí a ação é proposta sob dois aspectos: violação da legalidade e violação do princípio da laicidade do Estado.

A pessoa que entrou com a representação se sentia incomodada com a expressão?
Jefferson Dias –
Ela relata que se sentia afetada na sua liberdade religiosa pelo fato dela não crer em Deus e ter que conviver com a manifestação estatal de predileção por uma religião. Se chegar uma representação pra mim, independente de qual for a temática, eu sou obrigado a investigá-la. É uma obrigação legal minha.

A substituição das cédulas vai gerar despesas ao Banco Central?
Jefferson Dias –
Não vai gerar nenhum gasto. As cédulas vão se danificando e vão sendo substituídas gradativamente. Ela tem um tempo de vida útil e aí ela acaba se deteriorando e sendo substituída. Na ação nós pedimos que, nessa substituição de cédulas, elas sejam trocadas sem a expressão. Nem que demore 10, 15 ou 20 anos. Mas acredito que demore menos.

Um ateu entrou com a representação por se sentir ofendido, mas fato de retirar a expressão “Deus seja louvado” das cédulas não vai ofender uma população 64% católica, além das demais religiões cristãs?
Jefferson Dias –
O Estado não pode manifestar predileção religiosa. O Brasil optou em 1890 por ser um estado laico. O mais grave que um eventual sentimento dos católicos, é o fato de ser ilegal. Por exemplo, eu não gosto de pagar impostos, então não quero pagar impostos, mas é ilegal. Mesmo sendo católico, eu ouso discordar um pouco. Porque, se você for estudar a Bíblia, Jesus nunca teve uma posição materialista. Jesus disse que, quando lhe é perguntado se ele deveria dar dinheiro, pagar imposto a César, ele fala “A César o que é de César, a Cristo o que é de Cristo”. Quando ele encontra vendedores no templo, ele os expulsa de lá dizendo que “A casa do Senhor não é casa de comércio”. Perguntado sobre o rico, ele fala que “seria mais fácil um camelo passar pelo buraco da agulha do que um rico entrar no reino dos céus”. Então, em nenhum momento Jesus deu a atender, para quem é cristão, que o dinheiro deveria trazer o nome dele ou o nome de Deus. Acho que é uma inversão de valores.

Com tantas injustiças e violência, essa não seria uma forma de ressaltar certa religiosidade, pregar o cristianismo?
Jefferson Dias –
Mas essa é uma injustiça e uma violência. Eu estou sendo ameaçado por causa dessa ação, por cristãos. Recebi alguns emails com ameaças, em nome de Deus.

Ameaças em que sentido?
Jefferson Dias –
De que vão me matar. A religião é usada para violação de direitos humanos também. Acho um pouco de hipocrisia do religioso que usa um discurso, mas não usa uma prática condizente. Eu tenho uma religiosidade, a minha, mas acho que o Estado não pode ter religiosidade. Cada cidadão tem direito de optar pela sua.

O senhor já foi abordado na rua, questionado sobre essa a ação?
Jefferson Dias –
Na sexta-feira, em um jantar, fui bastante abordado. Mas para ser elogiado pela iniciativa. As pessoas me questionam mais pelo Twitter.

O senhor responde aos comentários?
Jefferson Dias –
Em alguns casos eu respondo. Só não quando a pessoa falta com a educação porque a abordagem está sendo agressiva, desrespeitosa.

O senhor poderia divulgar o seu endereço no Twitter?
Jefferson Dias –
Claro, é @jeffdiasmpf.

Qual a posição do senhor com relação à crítica do ex-presidente e presidente do Senado José Sarney (PMDB-AP) que disse “eu acho que isso é uma falta do que fazer”?
Jefferson Dias –
Eu acho que as pessoas não se dão ao trabalho de pesquisar sobre o trabalho da PRDC. Só nos últimos seis meses, por exemplo, nós fizemos um acordo com o INSS (Instituto Nacional da Seguridade Social) em uma ação nossa, que é o maior acordo da história do instituto. Em torno de 3 milhões de pessoas serão beneficiadas e R$ 15 bilhões. Nós conseguimos obrigar o governo federal a fornecer remédios para o AVC (acidente vascular cerebral), em abril desse ano. Temos uma ação contra a Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) para que ela obrigue as empresas aéreas a transportar cadeiras de rodas sem custo, porque ela cobra. Na página da Procuradoria nós temos relatórios semestrais. Há uma PRDC por Estado e nós somos a que mais tem demanda, a que mais tem ações, a que mais produz. Então eu estou um pouco acostumado. Se eu entro com uma ação defendendo portadores de necessidades especiais, falam que eu não tenho o que fazer. Se eu entro com uma ação defendendo homossexuais, falam que eu não tenho o que fazer. Então, isso é desculpa de quem se sente incomodado com alguma das nossas medidas. Sempre as pessoas acham que o outro problema é mais importante.

O senhor foi procurado por algum representante do Banco Central, do governo federal ou até mesmo por algum religioso para que a ação fosse retirada?
Jefferson Dias –
Até o momento não.

Na moeda americana, o dólar, também há a expressão religiosa “In God we trust” (Nós confiamos em Deus) e também uma em latim “annuit coeptis” (Deus ajudou na nossa empreitada). O senhor é contra essas manifestações?
Jefferson Dias –
A história do dólar é um pouco diferente. Essas expressões foram colocadas no dólar em 1.776 pelos maçons porque eles ajudaram na independência do País. Existe toda uma história. Mas no Brasil foi mandado colocar pelo ex-presidente José Sarney em 1986. Não tem história nenhuma. E da forma como está hoje, um presidente poderia mandar colocar “Vai Corinthians”, por exemplo. E se a maioria entender que é para colocar essa expressão? Aí o restante vai ter que aceitar? Pelo discurso do Banco Central, poderia colocar isso.

Então se quisermos escrever alguma outra expressão nas cédulas, como “Pague seus impostos em dia”, por exemplo, poderia?
Jefferson Dias –
Pela tese do Banco Central, sim. Segundo o governo federal, pode ser colocada a mensagem que quiser. E é contra isso que eu estou lutando.

Por se tratar de uma ação demorada, sua saída da PRDC (no início de 2013 devido ao término do mandato) enfraqueceria esse pedido?
Jefferson Dias –
Em tese não. Mas pode ser que haja alguma decisão e ninguém recorra. Não tem como prever o que vai acontecer. Principalmente porque, em tese, é uma ação que pode ser levada até o Supremo Tribunal Federal. E as decisões do Supremo são bem interessantes. O ministro Marco Aurélio Mello quando foi julgar o caso do aborto de anencéfalos, no voto dele, ele fala muito sobre as cédulas. Ele já fala que ele acha que deveria ser retirada a expressão. Tanto que a ação foi baseada muito no voto dele também. Inclusive, ele conseguiu dados que o Banco Central se recusava a me informar. Porque o BC foi muito reticente em me dar informações sobre por que havia sido incluído, quem mandou, e quem conseguiu foi ele.

O Banco Central dificultou de alguma forma?
Jefferson Dias –
O Banco Central dificultou sim a obtenção de informações, acho que, já desconfiado de que ia ter alguma medida judicial. Num primeiro momento ele respondeu única e exclusivamente que a expressão foi incluída porque estava no preâmbulo da constituição, só. Aí depois que o ministro Marco Aurélio descobriu tudo e colocou no voto dele, aí sim o Banco Central começou a reconhecer que não era bem assim, que existiam pedidos pessoais.

Mas a expressão usada no preâmbulo da Constituição não é feita em nome de Deus?
Jefferson Dias –
Sim, é outra. Inclusive o Supremo já decidiu que a palavra Deus no preâmbulo não tem força normativa, não gera efeitos jurídicos. Pessoalmente, acho que estamos abstraindo um problema de sentimentos pessoais. Acho que é inevitável. O Brasil, mais cedo ou mais tarde, vai ter que fazer essa separação efetiva entre Estado e governo. O interessante é que a própria Igreja Católica tem documentos dirigidos aos países muçulmanos. Quando diz respeito a países muçulmanos, a Igreja Católica defende a separação de Estado da igreja. Mas quando é do lado dela, ela defende outra coisa.

Essas expressões não são utilizadas apenas pela Igreja Católica, mas por outras igrejas cristãs também.
Jefferson Dias –
Mas tudo indica que foi incluída pela Igreja Católica. Além de ser uma expressão que não vai incorporar os politeístas e os ateus. Vamos supor que o próximo presidente da República seja ateu e ele queria escrever “Deus não existe”. Pela regra que eles falam, poderia.

Como senhor avalia as decisões tomadas pelo Supremo, já que o citou, diante de temas polêmicos como o aborto de anencéfalos, o uso de células tronco e a união homoafetiva?
Jefferson Dias –
O Supremo está decidindo juridicamente e não de acordo com religião. Acho isso importante. São decisões acertadas que debatem a partir de preceitos legais, funcionais, e acho que é o caminho. Esses são os grandes temas discutidos hoje em que os argumentos não são jurídicos, são religiosos. Esse desejo da Igreja Católica de continuar pautando decisões a partir de visões religiosas e não legais, acho que não tem mais espaço. Superamos essa fase. Muitas pessoas vão ficar incomodadas, mas acho que é um preço muito pequeno a se pagar pela democracia.

Talita Zaparolli (Direto de Marília)

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Claro que não há evidências de que o procurador sofreu qualquer tipo de ameaça de morte, e podemos suspeitar de jogo político da parte dele.

Entretanto, há pontos interessantes na entrevista. Ele diz: “A história do dólar é um pouco diferente. Essas expressões foram colocadas no dólar em 1.776 pelos maçons porque eles ajudaram na independência do País. Existe toda uma história. Mas no Brasil foi mandado colocar pelo ex-presidente José Sarney em 1986. Não tem história nenhuma.”

Claro que ele está fazendo uma distinção de emergência. A questão de “elemento histórico” é irrelevante, pois o referencial histórico de qualquer um se modifica. Alguém poderia achar que o período de 1986 era de transição para o Brasil, assim como 1776 foi de transição para os Estados Unidos, logo, dois elementos históricos.  O argumento dele para o julgamento do símbolo maçom é bem fraquinho, portanto. O truque dele de dizer que “Se há um referencial histórico, então não viola estado laico” poderia muito bem ser explorado pelos adversários.

Esta é a melhor parte: “Se chegar uma representação pra mim, independente de qual for a temática, eu sou obrigado a investigá-la”. Ou seja, em cima desse próprio procurador deve ser colocada pressão para que ele exija a retirada de Marianne da cédula também. Simples assim.

Quer dizer, Jefferson Dias tem um livro de regras, e é por esse livro de regras que ele pode ser demolido. Esse é o jogo político.

Contra a xerife da educação?

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Fonte: Jornal Opção

A mulher, aparentando uns 35 anos, a­jeita constantemente os óculos, entre doutoral e displicente, como se estivesse prestes a encarnar a Verdade, mas com sabedoria, sem imposição, mediante um convencimento despretensiosamente sedutor. O cenário revela uma nesga de estante em que livros esparsos perfilam entre motivos infantis. A primeira palavra que pronuncia é “gente”, como quem não quer nada, mas o vocativo informal não esconde o tom de pronunciamento ao mundo, motivado pelas redes sociais, que transformam em questão de Estado qualquer papo de botequim. Em seguida, ela explica que resolveu gravar o vídeo ao ver no Facebook a página de uma menina de 13 anos que fala dos problemas na escola pú­blica onde estuda e que se queixa dos colegas de classe por não apoiarem sua iniciativa de tentar melhorar a escola através das denúncias pela internet.

A mulher — que é designer gráfica e formada em artes plásticas pela USP — refere-se ao “Diário de Classe”, da estudante Isadora Faber, de Florianópolis, que virou a mais nova celebridade do país. Não cito o nome da mu­lher para poupá-la de si mes­ma, pois sua fala é constrangedora, tratando-se de uma pessoa adulta que se dirige a uma criança. Neste vídeo-manifesto datado de 27 de agosto último, ela diz: “Isadora, as pessoas não entendem o que você faz porque para cada pessoa como você no mun­do, nascem 100 idiotas, que não têm um pingo de senso coletivo, que não sabem o que é se preocupar de forma saudável com o que está ao seu redor, com as pessoas, com o planeta que está sofrendo”. E acrescenta: “Elas não entendem o seu empenho, a sua preocupação, e eu acho que por você ter essa mente tão evoluída, essa mente tão bonita, tá fazendo uma coisa tão legal”. E enfatiza: “Superapoio a tua fanpage. Superapoio o que você está fazendo”.

Faço questão de reproduzir essa fala porque ela reflete o tom laudatório com que as redes sociais e os meios de comunicação acolheram o “Diário de Clas­se” desde a sua criação em 11 de julho último. “Eu Isadora Faber que tenho 13 anos, estou fazendo essa página sozinha, para mostrar a verdade sobre as escolas públicas. Quero melhor não só pra mim, mas pra todos”, diz a aluna da Escola Básica Mu­nicipal Maria Tomázia Coelho, localizada na Praia do Santinho, em Florianópolis. A postagem de estreia traz uma foto com a se­guinte legenda: “Essa é a porta do ‘banheiro feminino’ da nossa escola que fica no santinho. Nem fechadura tem!!!” Outras fotos foram postadas no mesmo dia, mostrando um vaso sanitário sem tampa, dois bancos quebrados no refeitório, a fechadura desgastada do portão de entrada e a fiação precária do ventilador da sala onde a menina estuda. Um vídeo que mostra banheiros e corredores na hora da aula completa o primeiro dia do “Di­ário de Classe”.

Tribunal de professores

Não demorou muito para que o “Diário de Classe” se tornasse um sucesso na internet e sua autora virasse uma celebridade, sendo usada como exemplo do poder das redes sociais. Mas como sempre acontece com as glórias virtuais, o diário da menina só passou a existir de fato ao ser descoberto pelos jornais, rádios e televisões, ou seja, os meios de comunicação convencionais, o que deve ter sido facilitado pelo fato de os pais de Isadora Faber serem produtores de vídeo. Numa postagem de 5 de agosto, menos de um mês após a criação da página, a menina, com um português precário, já anunciava textualmente: “E sim vamos dar um jeito de levar pra mídia mais (sic) precisamos da ajuda de vocês para deixar mais conhecido ainda, precisamos de publicidade antes, e mesmo que não consigamos mais do que já temos não vamos pensar em desistir de fazer justiça, quero ver qual é o vereador que vai prometer arrumar a escola e se ganhar, realmente vai cumprir os combinados, o que nunca aconteceu”.

Provavelmente, seus pais já estavam entrando em contato com a imprensa, pois, em 14 de agosto, na página 2 do “Diário Catarinense”, apareceu a seguinte nota: “Duas alunas da Escola Básica Mu­nicipal Maria Tomázia Coelho, da Praia do Santinho, em Floripa, criaram uma página no Facebook para mostrar problemas como fiação e maçanetas quebradas e também as melhorias feitas no colégio. O título é ‘Diário de Classe’. Acesse e confira”. Como se vê, ainda não havia nenhum fato para catapultar na imprensa o “Diário de Classe” (afinal não faltam vídeos no You Tube mostrando problemas muito mais graves em escolas, inclusive brigas de alunos), mesmo assim, o “Diário de Classe” foi noticiado na página 2 do maior jornal de Santa Catarina, da Rede RBS. Quem conhece a imprensa sabe que dificilmente se consegue uma nota em espaço nobre de jornal sem haver um fato que a justifique, a não ser tendo influência com algum editor.

Mas o “Diário de Classe” provavelmente cairia no es­quecimento caso se limitasse a denunciar maçanetas quebradas e ventiladores estragados. Em todo ambiente com grande movimento de pessoas é praticamente impossível manter tudo arrumado durante todo o tempo. Em qualquer escola pública do país, por mais bem-cuidada que seja, é sempre possível encontrar problemas idênticos aos denunciados pela estudante catarinense, cuja escola tem 632 alunos. Esse assunto, de tão recorrente, logo perderia o interesse. Isadora Faber conseguiu passar dos 15 minutos de fama não pelos supostos bons serviços prestados à escola, mas pelas profundas desavenças que acabou criando na comunidade escolar. O espaço que começou como um fórum para reivindicar melhorias na estrutura do estabelecimento logo se transformou num tribunal para julgar sumariamente o desempenho dos professores.

A primeira vítima

A primeira vítima do “Diário de Classe” foi o professor de matemática Aloisio José Battisti, que havia sido contratado pela escola, como professor substituto, em 19 de agosto de 2011. No dia 10 de agosto último, quando sua página no Facebook estava pres­tes a completar um mês, Isadora contou que, na aula de matemática, o professor bateu na mesa pedindo silêncio, mas os alunos começaram a imitá-lo, aumentando a bagunça. Ela começou a filmar a balbúrdia, seus colegas perceberam e alertaram o professor. Os pais de Isadora e de sua colega Melina Santos (que dividiu com ela os primórdios da página) foram chamados à diretoria. Segundo relato da própria Isadora, a diretora disse que nada tinha contra a página das alunas no Face­book e só pediu que fosse retirado o vídeo para não expor a imagem do mestre. Mas a Secretaria Municipal de E­ducação de Florianópolis — num primeiro sinal de completo despreparo – afastou de imediato o professor.

Quem conhece a educação brasileira, especialmente a educação pública, sabe que a disciplina deixou de ser um atributo decorrente da autoridade institucional da escola para se tornar mera dádiva dos alunos. Se eles resolverem anarquizar a escola, só Deus para impedir. O Estatuto da Criança e do Adolescente faculta ao aluno fazer o que bem entender, inclusive espancar o professor, como frequentemente acontece e fica por isso mesmo. Hoje, só se consegue alguma ordem na escola com o aliciamento dos alunos indisciplinados, seja por meio da autoridade amiga de um professor carismático, seja por meio de regalias propiciadas pela direção da escola aos alunos infratores, a exemplo do que as autoridades prisionais costumam fazer com o PCC e o Comando Ver­melho. E se o professor é um subs­­tituto, com pouca experiência e conhecimento dos alunos, torna-se ainda mais difícil obter disciplina. Mesmo na rígida es­cola primária do passado, as classes costumavam ficar de pernas para o ar sob a regência um professor substituto.

Por isso, a Secretaria de Educação de Florianópolis foi precipitada ao demitir o professor Aloisio José Battisti já no dia 30 de agosto, menos de 20 dias depois da postagem de Isadora Faber. O professor Battisti é graduado em matemática pela Universidade Federal de Santa Catarina e, como requisito para a conquista do diploma, apresentou em 2002 a monografia “Equações Diferenciais Apli­cadas em Escoamento de Flu­ídos”, com 54 páginas, sob a orientação do professor Sergio Eduardo Michelin, mestre em Física pela Universidade Federal de Santa Catarina e doutor em Química pela Universidade Fe­deral de São Carlos, com dezenas de artigos científicos publicados, inclusive em revistas internacionais. Se para avaliar um professor, o celular de uma única adolescente vale mais do que o mestrado e o doutorado de duas grandes universidades federais, então para que gastar dinheiro com pós-graduação? Que se fechem as instituições de ensino superior do país e se dê um celular para cada aluno vigiar e punir o mestre. Fica mais barato.

Escola dividida

Ao mesmo tempo em que o professor de matemática foi humilhado e demitido pelo celular de Isadora, a Secretaria de Educação de Florianópolis escalou uma verdadeira força-tarefa para consertar todos os estragos apontados pelo “Diário de Clas­se”. Em reportagem do “Fan­tástico” de 2 de setembro, a secretária Sidneya Gaspar de Oliveira afirmou a respeito de Isadora: “É uma criança que está exercendo plena cidadania. Nós precisamos de muito mais alunos com esse mesmo ideal, com essa mesma atitude”. E na página oficial da secretaria, em matéria publicada no dia 28 de agosto, a secretária classificou como “brilhante” e “saudável” a iniciativa da menina e declarou: “Essa página veio inclusive nos auxiliar no monitoramento da escola. É uma espécie de ouvidoria”. É como se a pasta que administra não tivesse um cronograma de obras e trabalhasse sob a demanda da mídia, insuflada por uma menina de 13 anos.

A irresponsabilidade da secretária de Educação de Flo­ria­nópolis, no intuito de agradar a mídia, chegou a promover a hu­milhação da diretora da escola, Liziane Diaz Farias, que, segundo a mesma matéria oficial, “assumiu a responsabilidade por haver em sua escola uma gestão deficitária”, declarando textualmente: “Eu assumo publicamente que ocorreu fragilidade na administração do estabelecimento. Vamos a partir de agora trabalhar de forma diferente a parte administrativa e a preservação do patrimônio público”. Se fosse verdade o que a diretora se viu pressionada a dizer, ela teria que ser exonerada. Onde já se viu um gestor público confessar que só descobriu problemas em sua administração e resolveu mudá-la radicalmente depois de alertado por uma criança? A secretária de Educação de Florianópolis, Sidneya Gaspar de Oliveira, teria sido mais coerente se tivesse pedido demissão do cargo e indicado a menina Isadora para assumir o comando da pasta.

Poucos dias depois, as autoridades educacionais perceberam que tinham criado um monstro ao se render às exigências do “Diário de Classe”. A Escola Maria To­mázia ganhou maçanetas novas, mas perdeu a paz. Como não poderia deixar de ocorrer, os professores passaram a se sentir vigiados pela aluna de 13 anos, transformada nos olhos da mídia brasileira a devassar a escola. O próximo entrevero de Isadora Faber foi com sua professora de português, que, numa atitude condenável, registrou boletim de ocorrência contra a autora do “Diário de Classe”, consolidando ainda mais sua visibilidade nacional. Ao mesmo tempo, Isadora começou a cobrar de um pintor, pai de uma aluna, a pintura da quadra pela qual ele já havia recebido pagamento. Esse caso gerou ameaças de agressão entre os pais das duas alunas, a casa de Isadora foi apedrejada, sua avó acabou ferida e novos boletins de ocorrência, de parte a parte, foram registrados na polícia.

A escola ficou dividida entre os que defendem Isadora e os que a condenam, e a menina vem sendo levada às aulas pelos pais, devido às ameaças que enfrenta. Desde então, a direção da escola vem promovendo atos cívicos com alunos e professores, tentando trazer um pouco de paz para o ambiente de guerra que impera na escola. Surgiram páginas de alunos e funcionários da escola tentando mostrar o que chamam de “outro lado” do “Diário de Clas­se”, às vezes ressaltando aspectos positivos da escola, outras vezes criticando a família de Isadora Faber. E a Secretaria da Educação de Florianópolis, tentando remendar o estrago, passou a divulgar a boa nota obtida pela escola no Ideb (6,1 pontos), o que a coloca entre as melhores escolas públicas do país. Tardiamente, a Se­cretaria de Educação tenta fazer o que deveria ter feito desde o início: ouvir e respeitar a comunidade escolar como um todo e não render-se de imediato à visão unilateral do “Diário de Classe”, co­mo se uma menina de 13 anos tivesse a solução para todos os problemas do ensino.

Demagogia de jornalista

Comparando as primeiras postagens do “Diário de Clas­se” com as postagens atuais, percebe-se que de desabafo despretensioso de adolescente, que sonhava com 100 seguidores, como ela mesma confessou ao “Estadão”, a página tornou-se um empreendimento de celebridade, cada vez mais gerido pelos pais de Isadora, o engenheiro agrônomo Christian Faber, dono de uma bem-sucedida produtora de vídeos, e a mãe Diamela Leal Faber. Em 1º de novembro, o “UOL Educação” pu­blicou um excelente perfil da família, assinado por Renan Antunes de Oliveira, em que o repórter conta que os Faber são de origem alemã, descendentes dos fundadores da fábrica de lápis Faber-Castell. Para a estratificação social petista, que considera classe alta quem ganha acima de R$ 1.019, a família de Isadora é simplesmente milionária: tem ampla casa na praia com piscina e a mãe tem um Mercedes Benz na garagem. Classe mé­dia alta, para os padrões reais, não petistas.

Segundo o perfil do UOL, o pai de Isadora “parece ressentido com a falta de retorno financeiro da aventura da filha”: “Jamais ganhou um tostão” — diz. Mas, além da fama, ela ganhou um curso de inglês e um notebook novo, doado por ninguém menos do que o jornalista Gilberto Di­menstein — que nunca perde a chance de fazer demagogia politicamente correta com a educação. Com isso, o idealismo de Isadora vai sendo gasto indevidamente por terceiros. Não é papel de criança ou adolescente brigar por me­lhorias estruturais e pedagógicas em escola, até porque lhes falta experiência de vida para tanto. Quem deve corrigir os problemas do mundo de hoje são os adultos. No tempo de seus pais, a criança deve é estudar; caso contrário, quando se tornar adulta, ela estará despreparada para resolver os problemas de seu próprio tempo.

As primeiras postagens do “Diário de Classe” apresentam um português ruim para uma aluna de 13 anos que está quase entrando no segundo grau e ainda por cima quer ser jornalista. Mesmo descontando a inegável culpa da pedagogia construtivista, que ignora a gramática e não corrige a ortografia do aluno, há erros imperdoáveis em seu texto. Antes da revisão de seus pais no diário (admitida por ela própria quando a iniciativa lhe trouxe problemas), Isadora escrevia “mais” toda vez que queria usar a conjunção adversativa “mas”. Numa postagem de 31 de julho, em que re­preende seus professores, ela incorre três vezes no erro: “Al­guns professores falam que é a pior profissão do mundo, mais se eles ficarem parados da no mesmo porque estão recebendo de qualquer jeito. Por favor se não gosta da profissão muda, mais agora ficar parado encostado na porta só faz com que a nossa vida piore e atrase. Isso sim é ruim ver o tempo passar e saber não vou aprender e vou passar de ano, pra alguns é muito bom mais co­migo não é por ai não, ensina ou muda de profissão. Eu a­cho isso”.

Os melhores alunos nessa idade, com um mínimo de leitura, não costumam incorrer nesse tipo de erro. No caso de Isadora, o erro se torna imperdoável, pois os adultos de sua família têm curso superior. Além disso, como o diário pas­sou a ter mais im­portância na sua formação do que a própria escola, os seus pais têm o dever de exigir esmero na redação do mes­mo, contribuindo para o a­perfeiçoamento de seu português. Caso contrário, a menina pode se julgar maior do que é. A mídia já contribui para isso e seus milhares de leitores também. Isadora tem até uma aluna médica, que está aprendendo com ela como fazer um Facebook semelhante ao “Diário de Classe” só que na área da saúde. Um caso para o Con­selho Federal de Medicina examinar e, no mínimo, ad­vertir a profissional. Quem teria coragem de depositar a própria vida nas mãos de uma médica que, em vez de em­pregar o tempo livre na leitura de tratados científicos, prefere se fazer pupila de uma simples criança?

O que Isadora lê?

Em todas as entrevistas de Isadora, nenhum repórter se interessou em saber que livros ela já leu, se tem preferência por algum escritor, se gosta mesmo de escrever ou só se interessa pela pichação das redes sociais. É incrível como essa menina foi transformada em xerife da educação brasileira sem que se dê a menor importância para sua formação. Seu Facebook também não ajuda muito: não vi ne­nhum vestígio de livro por lá. É triste ver a mente de uma criança talentosa ocupada apenas com fotos diárias de merenda e maçanetas quebradas. Os pais de Isadora deviam incentivá-la a tirar pelo menos um dia de folga da militância para postar comentários sobre um livro que está lendo, um poema de que gostou, de preferência sem relacioná-los com as desavenças que enfrenta, como faz com as canções que lhe são enviadas, a exemplo da música “Apesar de Você”, de Chico Buarque, que ela dedicou à direção e à coordenação da escola em que estuda.

Há crianças e adolescentes brilhantes pelo país, alguns disputando olímpiadas internacionais de conhecimento, mas a imprensa pouco se importa com eles. Pre­fere transformar em oráculo uma aluna que se notabiliza pela militância da reclamação, não por culpa dela própria, mas por influência dos adultos que a cercam. Nas redes sociais, uma montagem chega a colocar a menina Isadora Faber ao lado do ministro Joaquim Barbosa, como os dois grandes heróis brasileiros. O risco é que a pobre criança acredite que pode mudar sozinha o mundo e, ao perceber que isso não é possível, se torne mais descrente do que seria se nunca tivesse mergulhado tão profundamente nas mazelas humanas. É natural e muito salutar que todo jovem seja um sonhador e acredite na salvação da humanidade. Mas Isadora é muito mais do que uma simples sonhadora — ela é uma ativista. E estão colocando o peso do país em seus ombros.

Prova disso é que, no início da tarde de sexta-feira, 16, ela postou um agradecimento a toda a polícia de Santa Catarina, em seu nome e no nome de sua família, e conclamou a população a não se omitir e fazer a sua parte pela segurança de todos: “Quem puder ajudar de alguma forma, por favor, não se omita, faça sua parte, denuncie, todos temos que fazer nossa parte, é pra segurança de todos. Tenho certeza que a ordem voltará e esses terroristas serão pegos e devidamente punidos. Confiamos no serviço da Polícia. Muito obrigada mesmo”.

Será que a família Faber pensa que sua filha menor de idade é governadora dos catarinenses, presidente dos brasileiros ou ministra do STF? Qual a razão de usarem o “Diário de Classe” para tratar de um assunto tão grave, que nada tem a ver com ele? Essa atitude pode pôr em risco a própria segurança da menina, já que ninguém conhece os limites dos criminosos, a quem ela chama de “terroristas”. A definição é correta (e me alegra saber que os pais de Isadora não pensam o contrário, ficando contra a polícia como faz a imprensa), mas essa declaração não devia estar na boca de uma criança, que precisa ser preservada desse mundo do crime. In­felizmente, apenas oito horas depois, a referida postagem já tinha sido curtida por 4.511 pessoas, compartilhada por outras 297 e recebido 373 comentários, o que estimula a transformação da estudante em celebridade.

Confesso-me constrangido de ter que comentar o caso de Isadora Faber. Ela é quase uma criança e não merece ler ou ouvir críticas de um adulto. Infe­lizmente, dada à sua exposição na mídia, é impossível analisar o caso sem falar dela. Num mundo ideal, justamente para evitar a exposição da filha e da escola, sua família teria parado com o “Diário de Classe”, assim que ele começou a dar problema. Foi o que fez a família da aluna Melina Santos, colega de Isadora, que a ajudava no início das postagens. Os pais de Melina não a deixaram continuar atuando no “Di­ário de Classe”, por entender que isso poderia prejudicá-la. Sem dúvida, um gesto de grande força moral, pois não é fácil renunciar à sedução da mídia. Os pais de Melina são os verdadeiros heróis dessa história, pois souberam dizer não.

A tirania da transparência

O caso do “Diário de Classe” revela uma profunda crise da escola contemporânea, agravada no Brasil por uma legislação que transforma em intocáveis os menores de 18 anos. Certo ou errado, o aluno menor de idade tem sempre razão e pode fazer do professor um refém de suas idiossincrasias. A pedagogia progressista destruiu a hierarquia entre adultos e crianças e um professor já não pode cobrar obediência do aluno — precisa convencê-lo, por meio do diálogo, a aceitar as regras. Como os alunos são 30, 40, 50 por sala e o professor é um só, o mestre está sempre em desvantagem. A maioria das regras de convivência humana não são logicamente explicáveis (se o fossem, seríamos robôs), logo, é impossível fazer com que 50 cabeças diferentes aceitem uma norma apenas através do diálogo. O que seria de uma grande empresa se a cada dia o gerente tivesse que convencer funcionário por funcionário a aceitar as regras que a mantêm? A empresa iria à falência, claro. Assim como a escola brasileira já foi a falência a partir do momento em que a pedagogia progressista igualou aluno e professor, anulando a autoridade do mestre.

A sociedade humana se assenta na divisão do trabalho e a escola é, por excelência, o lugar da divisão do trabalho entre adultos e jovens, em que os primeiros entram com a experiência e os segundos com a disposição para o aprendizado. E, para aprender, além da inteligência, é preciso tolerância, paciência e humildade. Quando uma criança nasce, o destino não a presenteia com os pais perfeitos e, sim, com os pais possíveis e ela tem de aprender a conviver com suas imperfeições. Na escola não é diferente. Se cada aluno se sentir no direito de pegar um celular e sair filmando toda imperfeição de cada professor, não há escola que pare de pé. E não é só a escola — nenhuma instituição se mantém viva se for objeto de semelhante devassa.

Vivendo nesse ritmo, a menina do “Diário de Classe” pode se desiludir muito jovem. O civismo militante cansa a alma. Por isso, a Bíblia recomenda que, em relação às virtudes, uma mão não deve saber o que a outra faz. A escola não pode ser transformada em “re­ality show”, com o assassinato da privacidade através dos celulares dos alunos. A escola tem de ser como a família — um lugar mais íntimo, mais reflexivo, pois as relações hu­manas que se travam nela são complexas, parecidas com as relações entre pais e filhos e entre irmãos. Já imaginaram se os alunos aplicassem aos próprios pais o método que usam com seus professores, relatando em tempo real, os amuos de seus familiares, as pequenas grosserias cotidianas que, mes­mo sem querer, praticamos com os mais próximos?

As instituições, como as pessoas, não sobrevivem sem um mínimo de privacidade. Como diz Caetano Veloso, “de perto ninguém é normal”. Caso a sociedade ache correto todo aluno expor sua escola em tempo real nas redes sociais, então é preciso estender essa medida para todas as demais instituições, como Governo, Parlamento, Justiça, etc. Nenhu­ma instituição pararia de pé se víssemos, em tempo real, as vísceras de todos, inclusive as próprias. Como a perfeição não existe e nenhum ser humano é puro, as instituições só funcionam quando se sustentam no papel social que exercemos e não no ser humano que somos. E a privacidade existe para isso — não só para proteger nossa individualidade dos ataques do mundo, mas também para preservar o mundo do achaque de nossas idiossincrasias.

José Maria e Silva

Meus comentários

O texto é longuíssimo e até cansativo, e a argumentação ao final não passa de um apelo à consequência. Claro que podemos criticar a estudante Isabela Faber por seus erros de português, e também por sua imaturidade (isto é, ela pensa que tem mais conteúdo do que realmente tem, um erro típico da adolescência – e que, por isso mesmo, torna a vida de um adolescente mais “mágica”).

Entretanto, há uma “simbologia” em toda a atuação dela que deve servir como exemplo: professores não são vacas sagradas. Um dos fatos que mais tem ajudado no sucesso da estratégia gramsciana no Ocidente é atuarmos a partir do ponto de vista de que padres, analistas, administradores e vários outros tipos de profissionais são passíveis de julgamento por sua atuação, mas os professores não. É um risco inaceitável achar que, desde que o professor esteja em sala de aula, a portas fechadas com sua classe, ele pode assumir a função de “guru” e fazer absolutamente o que quiser. Somente um aluno que conseguir escapar da doutrinação (caso o professor realmente seja um doutrinador, pois eu sei que existem professores que ainda querem de fato dar aula), poderá denunciar, mas o patrulhamento ideológico o impedirá. Ao dar o direito do professor se “entrincheirar” dentro de uma sala, com os recursos para a doutrinação psicológica que hoje existem no mercado, e sem julgamento externo de suas atividades, damos poder demais para uma pessoa só.

É mais ou menos esse tipo de denúncia que David Horowitz fez em seu livro “Indoctrination U.”, com o qual propôs umcódigo de ética aos professores e instituições universitários, para evitar que suas aulas virassem pregação de agenda ao invés da transmissão de conteúdo efetivo. Obviamente, ele sofreu milhares de críticas, todas da esquerda, além de manifestações de ódio. A esquerda não quer largar o osso, e para continuar grudada nele precisa ter o poder de não ser julgada pelo que faz em salas de aula.

Acho que precisamos de outras versões de Isabela, mas agora com idades acima de 15 anos, principalmente no final do colegial, no cursinho e, especialmente, na universidade. Quem paga as universidades e escolas públicas é o contribuinte. Quem depende do dinheiro público (e o pagamento de impostos é forçado, ao invés de opcional, como na iniciativa privada), tem que dar até mais satisfações do que no caso das instituições privadas.

No caso de uma instituição privada, se eu não gostar do tratamento dado, troco de instituição e deixo de pagar, mas isso não é possível no caso de instituições públicas, onde, independente do atendimento ser bom ou não, os impostos continuarão sendo cobrados. Mais um motivo para investigarmos a prestação de serviços feita.

Ressalto novamente: Isabela Faber não fez absolutamente nada contra a doutrinação esquerdista em sala de aula. E nem teria condições intelectuais de fazê-lo. Mas seu ato deve servir de inspiração para outras investigações em sala de aula, agora sim, por alunos mais maduros, e que queiram desmascarar a estratégia gramsciana.

Um raio X das regras para radicais de Saul Alinsky – Pt. 5 – Comunicação

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Alinsky diz que um organizador pode até sobreviver no ramo sem nenhuma das qualidades apontadas anteriormente (ver Pt. 4 – A Educação de um Organizador), menos uma: a da comunicação. Para ele, não importa o quanto alguém sabe a respeito de algum assunto, pois, se isso não for comunicado adequadamente às partes interessadas, simplesmente não fará diferença alguma.

A comunicação com os outros somente ocorre “quando eles entendem o que você está tentando transmitir a eles”. Caso esse “link” não ocorra, simplesmente você não está comunicando nada. Alinsky não se cansa de afirmar que “as pessoas apenas entendem as coisas nos termos de sua experiência, o que significa que você precisa entender a experiência de sua audiência”. Caso alguém não prestar atenção em relação ao que os outros tem a dizer a você, “é melhor esquecer” qualquer tentativa de levar suas idéias aos outros.

Uma fórmula que ele utiliza para saber se a comunicação ocorreu é ver que os olhos do outro brilham e ele responde: “Eu sei exatamente o que você quer dizer. Aconteceu algo comigo que tem tudo a ver com o que você disse!”. Quando isso ocorre, Alinsky diz: “A partir daí, eu sei que ocorreu a comunicação”.

A comunicação efetiva (em termos de conseguir falar as coisas nos termos da experiência do outro, isto é, de forma que o outro conseguirá entender o que você diz) era uma grande deficiência dos professores, e, a cada dia, isso tem melhorado. Quando escreveu seu livro, em 1971, Alinsky sentenciava que existem “apenas alguns poucos professores de verdade na profissão”, sendo que um professor de fato deveria ser capaz de usar a arte da comunicação.

Mesmo que um organizador não seja capaz de absorver toda a experiência de sua audiência, ele deve ter ao menos uma breve familiaridade com ela. Além da comunicação, “isso aumenta a identificação pessoal do organizador com os outros, e facilita qualquer posterior comunicação a partir daí”.

Em outros casos, onde você tenta comunicar algo, e “não pode encontrar o ponto de experiência da outra parte, através do qual ele pode receber e entender sua mensagem, então você deve criar a experiência para ele”. Alinsky conta um caso no qual ele conseguiu confundir uma garçonete (na frente de seus alunos), que era acostumada a entender os pedidos em termos numéricos, mesmo que os ouvisse pela forma textual – assim, mesmo que o cliente falasse bacon com ovos, ela entendia, em sua mente, como “número 1”, e daí por diante. Alinsky pediu um omelete com fígado de frango, mas também que o omelete não fosse misturado com o fígado de frango (isto é, o omelete de um lado, e o fígado do outro). A garçonete trouxe um prato de omelete puro, e outro prato de fígado de frango, quer dizer, dois pedidos ao invés de um. Ele usou esse exemplo para explicar aos alunos como um mero pedido básico foi mal compreendido por ter fugido da experiência da garçonete. Ele reafirma que, em qualquer organização de massa, não se pode ir além da experiência das pessoas.

Na comunicação com foco em persuasão, como em negociatas, “há algo além de entrar na área da experiência do outro, pois falamos em fazer uma correção nos valores e objetivos do outro”, sempre com um objetivo em mente. Por isso, a comunicação não deve ser focada apenas em fatos racionais ou na ética de uma questão. Para exemplificar seuponto, Alinsky cita a negociação entre Moisés e Deus em Êxodo 32:7-14:

Então disse o SENHOR a Moisés: “Vai, desce; porque o teu povo, que fizeste subir do Egito, se tem corrompido, e depressa se tem desviado do caminho que eu lhe tinha ordenado; eles fizeram para si um bezerro de fundição, e perante ele se inclinaram, e ofereceram-lhe sacrifícios, e disseram: Este é o teu deus, ó Israel, que te tirou da terra do Egito.” Disse mais o SENHOR a Moisés: “Tenho visto a este povo, e eis que é povo de dura cerviz. Agora, pois, deixa-me, para que o meu furor se acenda contra ele, e o consuma; e eu farei de ti uma grande nação.” Moisés, porém, suplicou ao SENHOR seu Deus e disse: “O SENHOR, por que se acende o teu furor contra o teu povo, que tiraste da terra do Egito com grande força e com forte mão? Por que hão de falar os egípcios, dizendo: Para mal os tirou, para matá-los nos montes, e para destruí-los da face da terra? Torna-te do furor da tua ira, e arrepende-te deste mal contra o teu povo. Lembra-te de Abraão, de Isaque, e de Israel, os teus servos, aos quais por ti mesmo tens jurado, e lhes disseste: Multiplicarei a vossa descendência como as estrelas dos céus, e darei à vossa descendência toda esta terra, de que tenho falado, para que a possuam por herança eternamente.” Então o SENHOR arrependeu-se do mal que dissera que havia de fazer ao seu povo.

Neste exemplo, Moisés teria entendido a onipotência de Deus e, ao invés de renegá-la, a endossou, clamando por uma avaliação menos dura por parte de Deus.

Um outro ponto importante na comunicação efetiva é deixar que as pessoas tomem suas próprias decisões, mesmo que sendo direcionadas por um questionamento socrático. Segundo Alinsky, “nenhum organizador pode dizer o que uma comunidade deve fazer”. “Mesmo que na maior parte do tempo ele tenha uma idéia clara do que eles deveriam fazer, ele deve atuar apenas sugerindo, manobrando e persuadindo a comunidade em direção àquela ação”, afirma. Ao invés de dizer o que a comunidade deve fazer, o organizador deve utilizar questões direcionadas. Abaixo está um exemplo tirado do livro, no qual ele demonstra como agia:

  • Organizador: O que você acha que devemos fazer?
  • Líder Comunitário 1: Eu acho que deveríamos fazer a tática X.
  • Organizador: O que você acha, Líder 2?
  • Líder 2: Sim, parece uma tática muito boa para mim.
  • Organizador: E você, Líder 3, o que acha?
  • Líder 3: Bem, eu não sei. Parece uma tática boa, mas algo me preocupa. O que você acha, Organizador?
  • Organizador: O que é mais importante é o que vocês acham. O que é que te preocupa?
  • Líder 3: Eu não sei, é algo estranho…
  • Organizador: Eu tenho um palpite, e não uma certeza, mas eu me lembro que ontem você e o Líder 1 estavam conversando e me explicando que alguém já tentou algo como a tática X e isso o deixou desguarnecido, e, nesse ponto não funcionou bem, ou algo do tipo. Você se lembra disso, Líder 1?
  • Líder 1 (que estava ouvindo e agora sabe que a tática X não deve funcionar): É verdade, tem razão. Eu me lembro. Sim, nós sabemos que a tática X não vai funcionar.
  • Organizador: Sim. Nós também sabemos que a não ser que abandonemos tudo o que não vai funcionar, não atingiremos a meta. Certo?
  • Líder 1 (efusivamente): Exatamente!

Alinsky diz que o questionamento sempre deve ser feito dessa forma, com cada falha encontrada na tática proposta sendo testada por questões. Daí, “eventualmente alguém sugere a tática Z, e, novamente, através de questões direcionadas, suas características positivas emergem e a decisão é feita por ela”. Suponha que a tática Z, escolhida pelo grupo (de acordo com o método acima), seja aquela que o organizador já queria de forma antecipada, Alinsky avalia: “Isto é manipulação? Certamente, assim como qualquer professor que se preze manipula, ou até mesmo Sócrates”. É claro que o organizador sabe a tática adequada, mas é melhor que os outros as descubram por si próprios. Caso ele lançasse ordens e “explicando” detalhadamente como os outros deveriam agir, automaticamente surgiria um “ressentimento subconsciente, uma sensação de que o organizador os está rebaixando, sem respeitar a dignidade deles como indivíduos”. Mais:

O organizador sabe que é uma característica humana alguém pedir por ajuda e reagir não apenas com gratidão, mas com uma hostilidade subconsciente em direção aquele que o ajudou. É um tipo de “pecado original” psíquico, pois ele sente que aquele que o ajudou está sempre alerta de que se não fosse por sua ajuda, ele ainda seria um zero à esquerda. Tudo isso envolve uma atuação talentosa e sensível por parte do organizador. No início, o organizador é o general, pois ele sabe onde, o que e como, mas nunca usa as quatro estrelas, nunca é mencionado como o direcionador e nem sequer age como um general – ele é um organizador.

Em alguns momentos, o futuro poderá mostrar que a tática Z não é a mais adequada, e o ego forte do organizador deve “ser forte o suficiente para permitir que algum outro tenha a resposta correta”.

Um dos fatores mutáveis e que modificam todo o aspecto da comunicação é o relacionamento. Há áreas sensíveis que não podem ser tocadas até que “surja um relacionamento pessoal forte baseado em envolvimento comum”. Caso contrário, o outro nem sequer lhe ouvirá, “mesmo que suas palavras estejam de acordo com a experiência dele”. Por outro lado, caso você tenha um bom relacionamento, seu interlocutor é automaticamente receptivo, e suas “mensagens” são percebidas em um contexto positivo, mesmo que na verdade não sejam.

Em um exemplo de falha de comunicação típica dos militantes universitários, ele cita momentos quando eles chegam para os pobres e dizem: “Ouça o que vou dizer: mesmo que você tenha um bom trabalho e uma casa confortável, uma TV colorida, dois carros e dinheiro no banco, isso ainda não lhe trará felicidade”. A resposta, sem exceção, é algo do tipo: “Sim, deixe-me julgar isso – Eu te falo quando eu conseguir tudo isso”. É o fim da comunicação, conforme ele avalia:

Comunicação em uma base geral, sem ser fraturada nas experiências específicas dos ouvintes, se torna retórica e carrega muito pouco significado. É a diferença entre ser informado da morte de um 250.000 pessoas – o que se torna uma estatística – ou a morte de um ou dois amigos próximos ou queridos da família de alguém. No último caso, temos o impacto emocional completo da finalidade de uma tragédia.

Muito provavelmente, isso explique por que a esquerda dificilmente é afetada pelo fato de que sua ideologia causou 200 milhões de mortos no século XX. A maioria entenderá isso apenas como um conjunto de estatísticas e nada mais, sem impacto emocional. Entre os cidadãos comuns, muitos nem sequer sabem quantos milhões compõem um bilhão. Números grandes, mais próximos da análise estatística, fogem da experiência do cidadão comum. Por isso, “é essencial que as questões sejam simples o suficiente para serem tratadas como foco de ações de grupo, transformadas em gritos de guerra”. Alinsky conclui: “Elas não podem ser questões gerais como pecado ou imoralidade ou a boa vida ou até mesmo a moral. Elas devem ser vistas como esta imoralidade deste senhorio de favela neste cortiço onde estas pessoas sofrem”.

Em resumo, para Alinsky, a comunicação ocorre de forma concreta, a partir da experiência do alvo da comunicação. As teorias genéricas somente adquirem sentido quando capazes de serem absorvidas e compreendidas em suas partes específicas (e que se relacionem com a experiência do ouvinte), e somente aí relacionadas de volta em direção a um conceito geral. Se isso não for feito, as especificidades se tornam “nada mais que uma série de anedotas interessantes”. Conclui Alinsky: “Este é o mundo como ele é no que tange à comunicação”.

Um estudo de caso corporativo mostra que o humanismo é muito menos racional e cético que a religião revelada

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Eu sempre suspeitei que o humanismo é a mais irracional de todas as religiões, e isso ocorre pelo fato de que eles partem de um ser humano idealizado (ao invés do que o homem realmente é), enquanto as religiões reveladas fazem uma força para ver o homem como ele realmente é, mesmo que usem mitos para fazer a absorção de alguns conhecimentos.

Eu não estou dizendo que isso torna a religião revelada algo racional per se, mas sim que a religião política é muito mais irracional que a religião revelada. Se todos os sistemas morais e códigos morais devem ser orientados ao ser humano (caso contrário, não haveria sentido para ter tais códigos e sistemas), só podemos avaliá-los racionalmente se eles falam do ser humano como ele é, e não de um ser humano que só existe em sua mente.

Os religiosos tradicionais dizem que o ser humano é cheio de falhas, e, portanto, deve “se confessar para Deus”. Eles também afirmam que essas falhas são inerentes  ao ser humano. Por outro lado, os religiosos políticos dizem que essas falhas podem ser eliminadas pela própria ação humana. Por isso, é natural que um religioso político como Bertrand Russell diga: “É indesejável acreditar numa proposição quando não há a menor base para supô-la verdadeira”.

Vamos aplicar o método de Russell no mundo corporativo. Imaginemos dois gerentes seniores,  X e Y, que falam de um gerente médio, W. W é aliado político de X, e adversário de Y. Não surpreende que X defenda, nos corredores, que “W é capaz de gerir pessoas com muita habilidade”, enquanto Y defende exatamente o oposto: “W não pode gerir pessoas, de forma alguma”.

Ou a afirmação de X é verdadeira, ou a afirmação de Y é verdadeira. Não há meio termo, e isso é uma constatação lógica. Se a afirmação de Y for verdadeira, W não serve para gerir pessoas, mas se a afirmação de X for verdadeira, W é um bom gestor de pessoas. Politicamente, tanto X como Y dependem do aceite de suas afirmações perante à alta gestão. (A lógica é a seguinte: quanto mais cercado de aliados um gerente esteja, melhor para ele)

Lembremos também que, com o uso adequado de jogos, as fragilidades de W podem ser facilmente escondidas, portanto, se X conseguir fazer com que os outros aceitem sua asserção como verdadeira, ele não será prejudicado por isso. (Ou seja, de acordo com a forma como o cenário é moldado, até um certo nível de “incompetência técnica” é aceitável dentre aqueles subalternos ao gerente)

O que estou querendo dizer aqui é que, em uma avaliação amoral (e qualquer avaliação científica é amoral), o melhor para X é que sua afirmação seja percebida como verdadeira pela alta gestão, independente de ser verdadeira. E, especialmente se Y for rival de X, é melhor para ele também que sua afirmação seja percebida como verdadeira pela alta gestão.

E isto refuta a afirmação de Russell, de que é “indesejável acreditar numa proposição quando não há a menor base para supô-la verdadeira”. Mais racional seria a afirmação de que é “indesejável acreditar numa proposição quando não há o menor motivo para supô-la verdadeira”. E, sendo os motivos variáveis de acordo com cada ser humano (X e Y teriam motivos diferentes), logo os dois gerentes estariam agindo racionalmente, mesmo que diante de informações falsas. (Alguém ainda poderia dizer que isso que X e Y fazem não seria “acreditar”, mas sim mentir sobre algo, sem acreditar nisso. É até possível, mas alguns  adeptos da hipnose erickssoniana dizem que muitas vezes é bom convencer-se de algo que não é verdadeiro, mas ao mesmo tempo útil para si próprio, para evitar ser pego em contradição, com seu comportamento não sendo congruente com o que você afirmou. Note que não estou fazendo um juízo de valor sobre se é moralmente correto ou não fazer este tipo de jogo interno, apenas afirmando que isso é possível. E, ainda assim, não há diferença técnica entre alguém que acredite em algo, para alguém que diz acreditar em algo, pois só podemos perceber o comportamento.)

A afirmação de Russell não faz sentido nem em termos lógicos e muito menos em termos estritamente científicos, pois ela parte do princípio de um ser humano idealizado, mas inexistente. As investigações deste blog tem levado à constatação de que esta idealização do ser humano, no entanto, só serve a um truque, o de idealizar um ser humano inexistente, vivendo em um mundo futuro, para fingir, em direção à platéia, que ele próprio seria este ser humano idealizado vivendo neste mundo. A partir daí, com o uso das cinco rotinas chave do humanismo, ele convenceria a platéia de qualquer idéia absurda que ele quisesse.

Tecnicamente, se ele estiver ciente de todos os benefícios que obtém e da arquitetura deste truque, estaríamos diante de alguém muito inteligente. Provavelmente os gerentes X e Y poderiam usar este truque, com maior ou menor ênfase, para melhorarem sua competitividade no jogo político corporativo. Mas, e para alguém que não está recebendo os benefícios desta crença? Aí sim, acreditar em Bertrand Russell é muito mais irracional do que acreditar em qualquer forma da religião revelada.

Os intelectuais progressistas e a discordância como ofensa

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Fonte: Ordem Livre

Tenho observado ao longo do anos esse fenômeno revelador de uma certa personalidade e mentalidade progressista: qualquer um que não reze pela cartilha, qualquer um que discorde de qualquer ponto ou aspecto da ideologia culturalmente dominante, não é um indivíduo que discorda de um argumento A ou B, mas um ofensor, um infame que ousa recusar-se a aceitar a superioridade da ideologia perfeita.

Se antes apenas alguns doutrinários e doutrinados das ideologias progressistas (muitas delas de esquerda) seriam capazes de pessoalmente se indignar com o interlocutor de forma ostensiva, com ameaças verbais e até agressões físicas, hoje tal comportamento de indignação agressiva virou moeda comum graças ao conforto, proteção e distância física propiciada pela internet. Para muitos desses progressistas das esquerdas de variadas matizes (e não só para eles), a internet é um poderoso estimulante comportamental, como a cocaína ou o crack para criminosos.

Usando a tela e o teclado como escudos, difamam, injuriam, caluniam e passeiam por outros artigos do código penal sem o menor escrúpulo ou drama de consciência. O fazem porque se consideram inimputáveis legalmente e ideologicamente. E se acham inimputáveis porque se veem alicerçados e justificados no pensamento político e cultural dominante gerado e legitimado pelos intelectuais e difundido e ratificado pela intelligentsia. (1)

Se a cosmovisão que lhes é transmitida pela maioria dos professores do ensino fundamental à universidade, onde ganha uma roupagem científica, com aceitação ativa ou passiva dos pais, familiares, amigos e colegas, é ratificada e ampliada por certa imprensa, comentaristas, personalidades culturais, intelectuais e até mesmo empresários, é compreensível que considerem-na correta, como a única e perfeita resposta para todos os problemas ocorridos dentro da sociedade.

Quando se acredita acriticamente numa ideia ou num corpo de ideias enquanto um instrumento de perfeição e de resolução plena e absoluta de todas as questões que regularmente emergem na vida em sociedade devido à interação entre os indivíduos com desejos, anseios, vontades e objetivos diferentes, a imperfectibilidade intrínseca à qualquer criação humana é simplesmente ignorada ou estrategicamente descartada, para que a ideologia cumpra o seu destino histórico.

Dessa forma, uma posição contrária àquele sistema de pensamento, àquela mentalidade, àquela falaciosa estrutura de utopia realizável no futuro, não é entendida ou assimilada como aquilo que realmente é, mas como uma afronta, uma ofensa, uma reação estúpida e débil a uma manifestação superior de inteligência. O tom de toda reação esquerdista é similar: “como ousas me questionar?”.

A influência dos intelectuais numa democracia pode ser imensa ou crucial no curso do desenvolvimento social, a depender “das circunstâncias adjacentes, incluindo os níveis de liberdade para a propagação de suas ideias, em vez de se tornarem meros instrumentos de propaganda, como acontece nos países totalitários”. (2) E quanto mais amplo o ambiente de liberdade onde o intelectual progressista possa se expressar e exercer a sua influência maior a possibilidade de convencimento e persuasão de uma parte da sociedade para ideias que põem em causa esse ambiente de liberdade que os permitiu emergir.

O professor Mark Lilla, que dissecou o assunto no seu excelente The Reckless Mind: Intellectuals in Politics, nos conta que “professores distintos, poetas talentosos e jornalistas influentes reuniram suas habilidades a fim de convencer, a todos os seus ouvintes e admiradores, que os tiranos modernos eram libertadores e que seus crimes hediondos eram nobres, bastava vê-los sob a perspectiva correta”. Aquele que se dedicasse a “escrever, honestamente, sobre a história intelectual do século XX na Europa”, advertiu Lilla, teria “que ter estômago forte”. (3)

Por qual razão os intelectuais progressistas e a intelligentsia atentam contra a sociedade e o ambiente de liberdade que os permitiu existir e se expressar? Uma parte da resposta talvez esteja em dois pontos claramente identificáveis: o primeiro é se considerarem superiores aos demais indivíduos, como se fossem os eleitos, ou, para usar a expressão de Sowell, os ungidos (4), prontos para iluminar e conduzir a sociedade; o segundo é uma peculiar visão de sociedade baseada na concepção de pessoas abstratas que vivem num mundo abstrato, o que torna possível criar intelectualmente um modelo ideal de sociedade que exige a exclusão da realidade fática.

No primeiro ponto, a certeza da superioridade moral e ideológica faz com que esses intelectuais olhem para a humanidade como um problema incômodo a ser resolvido e com desprezo para os seus críticos, convertidos em inimigos e como um mal a ser extirpado. Essa perspectiva transborda para a intelligentsia e anaboliza a fúria dos inocentes úteis (servidores públicos, estudantes universitários, desempregados, ressentidos etc.). Muitos deles sequer sabem que são meros instrumentos de uma causa, mas age em seus ambientes (em cursos de gradução e departamentos universitários, por exemplo) como uma minoria histérica que se apresenta ao debate como legítimos representantes dos grupos dos quais fazem parte (a maioria silenciosa, interessada em trabalhar ou estudar, acaba por ser afetada e denegrida).

A internet, para a intelligentsia e seus inocentes úteis, funciona como um megafone moderno. Eles ocupam as redes sociais, os espaços de comentários de blogs e sites, criam seus próprios blogs e sites, muitos financiados pelo governo de turno, para vocalizar sua ideologia, hoje dominante, e atacar os inimigos. Tenho certeza de que você, leitor, em algum momento, já se deparou com um desses, mesmo que não tenha sido uma vítima direta dos ataques. O modus operandi é sempre o mesmo, seja na ação ou na reação. Sobrepõem temas freneticamente, lançam informações falsas ou adulteradas, distribuem acusações as mais estapafúrdias, muitas valendo-se de polilogismo. Fazem, enfim, o que podem para não permitir que nenhuma discussão prospere, porque isto exibiria a fragilidade dos argumentos ou a própria ignorância individual acerca do tema em questão. É uma impossibilidade desenvolver um debate de ideias e uma ingenuidade esperar que possa havê-lo. Trata-se, no mais das vezes, de perda de tempo e de um custo emocional.

No que tange ao segundo ponto, ou seja, a visão social peculiar ancorada em pessoas abstratas vivendo num mundo abstrato, a realidade, para esses intelectuais progressistas, é um obstáculo a ser superado. Porque as pessoas reais e o mundo existente não podem ser moldados ou redesenhados de acordo com a teoria. Por outro lado, as pessoas e o mundo abstratos, aqueles que só existem num exercício teórico de abstração, podem ser concebidos, remodelados, reprogramados segundo a necessidade circunstancial e as contingências. Assim, quando o regime no poder decide aplicar à realidade o sistema construído sob as abstrações, há um choque violento que resulta em vítimas de carne e osso. Se o real não se adequa ao abstrato, pior para o real e para todos que nele vivem. Segundo Sowell:

“Quando diferenças reais entre pessoas reais são mencionadas ou levadas em consideração por outros, os intelectuais são os primeiros a declarar que são meras “percepções” e meros “estereótipos”. Evidência para conclusões tão apressadas são raramente perguntadas ou fornecidas. Igualdade abstrata é o ponto de partida a priori de suas suposições. Não há motivo algum para que pessoas abstratas tenham resultados diferentes quando suas diferenças reais em capacidade foram, abstratamente, descartadas.

(…)

A excepcional facilidade que os intelectuais têm para lidar com abstrações não elimina a diferença entre essas abstrações e o mundo real. Nem mesmo garante que aquilo que é válido e verdadeiro para essas abstrações seja igualmente verdadeiro na realidade, muito menos garante que as sofisticadas visões abstratas dos intelectuais deveriam passar por cima das experiências diretas das pessoas vivendo no mundo real. Os intelectuais podem, de fato, desconsiderar as “percepções” dos outros, rotulando-as como “estereótipos” ou “mitos”, mas isso não é o mesmo que provar que elas estão empiricamente erradas, mesmo quando um número notável de intelectuais age como se elas estivessem. Por trás da prática disseminada de considerar diferenças de grupo em “representações” demográficas, em várias profissões e instituições os níveis de renda como evidência de discriminação, existe a noção implícita de que os grupos não podem ser diferentes ou que quaisquer diferenças são culpa da “sociedade”, a qual deve corrigir seus erros e seus pecados”. (5)

Sowell considera que o ponto fundamental “não é dizer que a intelligentsia estava enganada ou mal informada sobre determinadas questões”, mas “que, ao pensar em termos de pessoas abstratas num mundo abstrato os intelectuais se furtam à responsabilidade e ao trabalho árduo de apreender os fatos reais sobre pessoas reais vivendo num mundo real, fatos que geralmente explicam as discrepâncias entre o que os intelectuais veem e o que eles gostariam de ver”.

Furtar-se à realidade, a meu ver, não só é mais trabalhoso e exige responsabilidade, como torna imprescindível reconhecer a sua existência, ou seja, as suas variáveis, nuances, limitações, imperfeições. Isso explica por que, segundo o autor, muitos intelectuais interpretam como erros do mundo as diferenças entre teoria e realidade que estão na origem da confusão de entendimento do que sejam problemas sociais. Mas essa confusão, proposital ou ideologicamente orientada, serve para justificar a implantação de medidas políticas de cima para baixo pelo pode centralizado a que os intelectuais servem em maior ou menor grau.

Para os inocentes úteis nas universidades, muito deles revolucionários de Facebook submersos no mundo abstrato de pessoas abstratas criado pelos intelectuais e pela intelligentsia (representada pelos seus professores, diretores de departamentos), a realidade representada por indivíduos concretos com uma visão de mundo contrária a deles é um choque. E o impacto desse contato lhes provoca repugnância e reações destemperadas. Trata-se de uma situação interessante e um tanto absurda se considerarmos que uma parcela desses jovens terá contato com o mundo real através do mundo virtual. Cada atitude reacionária pessoalmente ou pelas redes sociais é derivada desse espanto com a realidade. O grau de agressividade parece estar relacionado e ser proporcional ao nível de abstração desenvolvido pelo agente.

O desequilíbrio exposto nessas reações também pode ser explicado pela saída da zona de conforto que a ideologia provê a partir das abstrações, das orientações, ou das ordens emitidas por um corpo de ideias que abrange e agrega uma única solução para todos os problemas, em vez da incômoda condição de manutenção de uma visão crítica (e imperfeita, sem respostas prontas e acabadas), não-dogmática, intelectualmente honesta, e a desconfortável posição de viver num ambiente de incertezas no qual é preciso a cada momento assumir os riscos das próprias escolhas e testar a dimensão de sua responsabilidade. “O fardo de tomar as próprias decisões é, para muitas pessoas, intolerável. Estar vinculado à necessidade de decidir por conta própria é ser escravo de seus próprios ímpetos”, afirmou escritor Anthony Burguess num texto primoroso recentemente publicado. “É mais fácil receber orientações: fume tal cigarro – 90% menos alcatrão; leia tal livro – 75 semanas na lista de best-sellers; não veja tal filme”, completou.

Na semana passada, conversei com um professor de uma universidade federal. O seu relato deixou-me ainda mais abismado do que eu poderia imaginar previamente. O nível do aparelhamento ideológico do departamento a que ele está vinculado já ultrapassou há muito a patologia, a estupidez e a mera desonestidade. Para tornar a história ainda mais absurda, tornou-se a vítima preferencial do chefe do departamento e dos demais professores do curso, assim como dos alunos incitados por aqueles, por não se submeter àquela visão de mundo, de sociedade, de indivíduos, de política, de ideologia.

Instigado pelo professor para verificar um exemplo ínfimo do que ele vivencia profissionalmente, visitei a comunidade do Facebook onde esses personagens militam em detrimento da universidade e da inteligência. O que li é de fazer qualquer pessoa sensata duvidar que uma parte da humanidade fora agraciada com as conquistas do processo civilizatório. Professores e alunos competindo naquela esfera de estupidez elevada ou pretensiosa que o escritor austríaco Robert Müsil considerava como a verdadeira doença da cultura e que se infiltrava nas mais altas esferas intelectuais, tinha enorme influência dentro da sociedade e se manifestava com a participação ativa “na agitação da vida intelectual, especialmente na sua inconstância e ausência de resultados”. (6)

Naquele universo restrito da rede social, a cada tentativa de concatenação de falta de ideias combinadas com insultos, emergia a prova empírica de como se desenvolveu e se manifesta essa estrutura de pensamento progressista e o horror que seus agentes expressam de forma agressiva contra o elemento de perturbação daquela ordem. Isso suscitava ataques e ultrajes dos mais variados contra o professor, que, diante da minha sugestão diplomática, respondeu-me que em hipótese alguma sairia daquele grupo porque sua posição era a única nota crítica naquela terra desolada.

De alguma forma, ele acredita que suas opiniões possam influenciar um ou outro aluno ou professor, ou, ainda mais importante, demonstrar que a minoria histérica não é a categoria exclusiva virtuosa e superior que pretende ser. Se os intelectuais e a intelligentsia consideram a discordância uma ofensa, o professor usa a razão como instrumento de resistência. Admiro. Apoio.

Bruno Garschagen

[1] Uso intelectuais e intelligentsia nos sentidos atribuídos por Thomas Sowell no excelente Os Intelectuais e a Sociedade (São Paulo: É Realizações, 2011), ou seja, intelectual como “uma categoria ocupacional, composta por pessoas cujas ocupações profissionais operam fundamentalmente em função de ideias – falo de escritores, acadêmicos e afins” (p. 16) e intelligentsia como o grupo formado, “em grande parte, pelo corpo de professores, jornalistas, ativistas sociais, adidos políticos, funcionários do judiciário e outros que fundamentam suas crenças ou ações a partir das ideias produzidas pelos intelectuais do primeiro escalão” (p. 21).

[2] Ibid., p. 7.

[3] Mark Lilla, The Reckless Mind: Intellectuals in Politics, New York: New York Review of Books, 2001, p. 198, citado por Thomas Sowell Os Intelectuais e a Sociedade, p. 9.

[4] The Vision of The Anointed, Self-Congratulation as Basis for Social Policy, New York: Basic Books, 1995

[5] Thomas Sowell, Os Intelectuais e a Sociedade, p. 182-184.

[6] Robert Musil, Precision and Soul: Essays and Addresses, Chicago: The University of Chicago Press, 1990, p. 284

Meus comentários

Há um detalhe importante: não necessariamente os usuários do discurso de esquerda se “acham” acima do bem e do mal, mas em muitos casos eles fazem uma encenação, de acordo com as palavras utilizadas para gerar o efeito psicológico na platéia.

Como o discurso progressista é inteiramente focado em apelo à autoridade (com rotinas do tipo “Dono da razão” ou “Representante da ciência”), o uso das ofensas posteriores a um oponente de suas idéias é apenas o resultado do uso da autoridade moral obtida com os rótulos implementados.

O problema maior, então, é o uso de uma falsa autoridade moral fornecida pelo discurso progressista, e todo esse esforço vale a pena pelo direito automático (ao menos na percepção da patuléia) que eles obtem de agir da forma que quiserem (inclusive quebrando a lei) contra os oponentes.

Tirando esse detalhe (em que Bruno aparentemente clica no email de phishing achando que ele veio por engano, enquanto eu percebo o email de phishing uma fraude intencional), um belíssimo texto.

Um raio X das regras para radicais de Saul Alinsky – Pt. 4 – A educação de um organizador

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Esse capítulo (e os dois que o seguirão) são essenciais para que Alinsky qualifique, defina e oriente aquilo que ele define como um organizador[1].

Antes, ele nos relembra que a assimilação de uma série de organizações de poder em uma força nacional de poder não ocorre sem uma série de organizadores. As organizações são criadas, na maior parte dos casos, pelo organizador. Por isso é importante, para ele, definir o que “cria um organizador”. No contexto pelo qual Alinsky viveu nos anos 40 a 70, grande parte de sua atuação envolvia organizações relacionadas ao movimento negro, atividades de campus universitários, militantes indígenas e grupos hispânicos. Todos grupos que tinham uma ou outra demanda, e que requeriam algum tipo de orientação de forma a lutar por poder[2].

Para ele, um potencial organizador não só pode como deve utilizar sua experiência pessoal, como base para o ensino. Todas as experiências adquiridas seriam úteis apenas se forem relacionadas ou puderem iluminar um conceito central.

No processo de organizar grupos e treinar pessoas para a organização, Alinsky reconhece que em sua trajetória visualizou mais fracassos do que sucessos. Ele ressalta que organizações diferentes possuem nuances diferentes, e, portanto dificuldades de organização diferentes. Por exemplo, organizações de ativistas universitários, para ele, geralmente falham na comunicação e não conseguem organizar trabalhadores de classe média. Já líderes de sindicato são focados apenas em questões fixas, como demandas salariais, pensões, e períodos de folga. Para ele, organizações de massa requerem habilidades diferentes, pois não exigem pontos cronológicos fixos, ou questões definitivas:

As demandas estão sempre mudando; a situação é fluida e continuamente mutável; e muitos dos objetivos não são expressos de forma concreta em termos de dólares ou horas, mas em abstrações psicológicas e completamente mutáveis, como “o material do qual os sonhos são feitos”. Eu já presenciei líderes sindicais que ficavam quase fora de si quando tinham que lidar com o cenário de organizações de massa[3].

Um outro ponto importante para a educação de um organizador tem a ver com o fato de que os melhores organizadores são aqueles que apreendem a lógica do que é ser um organizador, ao invés apenas de ficar repetindo o que aprendeu com um outro organizador. Alinsky diz que os que mais falharam no aprendizado eram aqueles que pareciam “uma fita sendo tocada, repetindo exatamente o que eu disse em minha apresentação, palavra por palavra”. Se não tinham um entendimento exato do que ser um organizador era, “não podiam fazer mais do que organizações básicas”. Ele nos diz mais:

O problema com muitos deles era (e é) sua falha em entender que uma declaração de uma situação específica é significativa apenas em sua relação com a ilustração de um conceito geral. Em vez disso, visualizam a ação específica como um ponto terminal. Eles acham difícil compreender o fato de que nenhuma situação sempre se repete, e que nenhuma tática deve ser precisamente a mesma em sua aplicação.

Um dos pontos centrais (e falaremos bastante disso a seguir) dos aprendizados de Alinsky em todo o período no qual ele tentou ensinar outros organizadores é a idéia de que “só podemos entender algo em termos de nossa experiência”, assim como só é possível nos comunicarmos com alguém em termos da experiência dessa pessoa.

Alinsky, reconhecendo que sua experiência como educador de organizadores nem de longe teve tanto sucesso quanto ele esperava, garante que ao menos conseguiu aprender quais são as qualidades necessárias para um organizador ideal, assim como reconhecer que é possível ensinar ou educar os outros para que adquiram estas qualidades.

Para ele, “a área da experiência e comunicação é fundamental para o organizador”. Como já dito antes, um organizador “só consegue se comunicar dentro das áreas da experiência de sua audiência”. De outra forma, simplesmente não há comunicação. Por isso, um organizador, “em sua constante busca por padrões, universalidades e significados, está sempre construindo um corpo de experiência”. Em outras palavras, isso significa algo que pode ser exemplificado desta forma: suponha que alguém tenha que se comunicar com os grupos X, Y e Z. Cada grupo irá reagir de uma forma diferente à participação do organizador, e nesta interação cada grupo demonstrará seus padrões, características, significados, e compartilhará as experiências individuais de seus membros. Esse conhecimento obtido deve fornecer insights ao organizador, para que cada próxima comunicação com cada um dos grupos seja mais focada. Assim, um organizador não estaria focado apenas em seu mundo, mas sim no mundo dos outros, e nos significados relacionados aos outros, com os quais ele vai interagir. Por isso, sua imaginação deve ser receptível o suficiente “para ter sensibilidade em relação aos eventos que ocorrem na vida dos outros, buscando se identificar com eles e extraindo os eventos relacionados a eles absorvendo-os pelo seu próprio sistema digestivo mental, e daí acumulando mais experiência”. É essencial para sua comunicação “que ele entenda e conheça as experiências dos outros”. Sendo que a regra a não ser esquecida é a de que alguém só pode ser comunicar através da experiência do outro, “se torna claro que o organizador deve desenvolver um corpo de conhecimento extraordinariamente extenso sobre as experiências humanas”.

Mas não adianta alguém fingir aquilo que não é. É melhor manter sua própria identidade. Sendo nós mesmos, podemos nos comunicar com o outro, aumentando o grau de empatia. Comportamentos dissimulados tendem a não durar. Podemos até ser ousados em nossa comunicação (as vezes até ligeiramente ofensivos), mas isso é muito mais produtivo do que ficar utilizando “técnicas profissionais”, aprendidas com gurus da comunicação, que serão percebidas como falsas a cada vez que o conhecerem melhor. A regra aqui é: mesmo que alguém tenha que planejar suas ações no sentido de organizar grupos, sua personalidade não deve ser fingida. Com isso, as pessoas com as quais a interação ocorre serão tratadas como pessoas de fato, e não macacos de laboratório. Em retorno, elas reconhecerão isso e se sentirão gratificadas.

No geral, Alisnky delineia algumas características ideais de um organizador, mesmo sem esquecer do alerta inevitável: “Eu duvido que estas qualidades, em altíssimo grau de perfeição, alguma vez tenham ocorrido em conjunto em um homem ou mulher; ainda assim, os melhores organizadores devem possui-las todas, em um grau alto, e qualquer organizador precisa ao menos um grau razoável de cada”.

São elas:

  • Curiosidade
  • Irreverência
  • Imaginação
  • Senso de humor
  • Uma visão turva de um mundo melhor
  • Uma personalidade organizada
  • Um esquizóide politicamente bem integrado
  • Ego
  • Uma mente livre e aberta, e relatividade política

Falaremos um pouco mais de cada uma delas.

Curiosidade

Para Alinsky, um organizador é “dirigido por uma curiosidade compulsiva que não conhece limites”. Sua vida seria “uma busca por um padrão, por similaridades em semelhanças aparentes, uma ordem no caos que nos rodeia, por um sentido para a vida ao seu redor e seu relacionamento com sua própria vida – em uma busca que nunca termina”. O questionamento de “comportamentos e valores atuais é o estágio da reformação que precede e é tão essencial à revolução”[4]. O questionamento socrático, que surgiu para  levantar questões que agitavam o modo de pensar padronizado, é um exemplo da curiosidade que Alinsky diz que um organizador deve ter.

Irreverência

A irreverência caminha lado a lado com a curiosidade. Uma não pode existir sem a outra. Para o questionador, “nada é sagrado”[5]. Não raro, ele será visto como “desafiador, ofensivo, agitador, desacreditador”.

Irreverência aqui é mais definida como uma iconoclastia radical. Idéias são lançadas e tornam-se vigentes e aceitas. Hoje em dia nossa sociedade está carcomida por causa do politicamente correto, que estabeleceu uma série de idéias que não podem ser questionadas e comportamentos que não podem ser criticados. A postura na qual alguém está pronto a desafiar estas vacas sagradas é o que se define aqui por irreverência. Ou seja, ausência de reverência ao pré-estabelecido.

Isso vale tanto para os dogmas dos oponentes, como os dogmas internos. Em outras palavras, vale tanto para questionar as idéias que o seu oponente acredita (e que você percebe como falsas, e tem como demonstrar que são falsas), como também as táticas que aqueles que estão do seu lado possuem para reagir ao oponente, e que não estão funcionando.

Imaginação

Mais uma outra característica parceira da irreverência e da curiosidade. É através de uma boa imaginação que alguém “inflama e alimenta a força que o orienta a organizar para mudança”. Caso a mudança seja feita para os outros, é preciso se identificar com as pessoas afetadas por essa mudança e projetar os desejos dessas pessoas no esforço que será empenhado. Diz Alinsky: “Ao nos identificarmos com os outros, sofremos com eles, ficamos com raiva das injustiças cometidas com eles e começamos a organizar uma rebelião”[6].

Além da imaginação ser útil para que o organizador encontre a motivação necessária, é vital para as táticas e as ações que funcionem. Sendo que cada ação de mudança vai gerar uma reação, o organizador deverá ter em mente quais as possíveis reações que seus oponentes terão. Quanto mais ele conseguir se antecipar a estas reações, melhor.

Senso de humor

Para Alinsky, o organizador deve ter a capacidade de poder rir de si próprio. Sabendo que “as contradições são as placas de sinalização do progresso, ele sempre estará alerta para as contradições”.  Além disso, o humor é vital para um tático de sucesso, pois “a arma mais potente conhecida pela humanidade é a satirização e o ridículo”.

Outro ponto no qual o humor pode ser útil é na manutenção de sua irreverência. O organizador deve manter uma identidade pessoal “que não pode ser perdida pela absorção ou aceitação de qualquer tipo de disciplina de grupo ou organização”.

Uma visão turva de um mundo melhor

Para os marxistas, a expressão “mundo melhor” significa a utopia de um mundo sem classes, com a superação de capital. Para os humanistas, um governo global com a fraternidade universal. Para alguém da direita, um mundo melhor teria menos impostos, mais responsabilidade social e maior punição aos criminosos.

Quaisquer conquistas em direção ao “mundo melhor”, em relação ao que está hoje[7], devem incluir idéias novas, vindas de outros organizadores. O que pode ser alcançado? Quais devem ser as metas para as próximas ações de mudança? Estes pontos devem estar sempre sob discussão, jamais se tornarem dogmas.

Uma personalidade organizada

Para Alinsky, um organizador deve “ser bem organizado em si próprio de modo que se sinta confortável em uma situação desorganizada, sendo racional em um mar de irracionalidades”. Para direcionar ações de mudança, é vital que ele seja capaz de “aceitar e trabalhar com irracionalidades”, pois, como ele diz várias vezes, “com exceções raríssimas, as coisas certas são feitas pelas razões erradas”. Ele nos diz mais:

O organizador deve saber e aceitar que a razão correta é apenas introduzida como uma racionalização moral após o fim correto ter sido alcançado, mesmo que ele possa ter sido alcançado pela razão errada – portanto ele deve buscar e usar as razões erradas para alcançar os fins certos. Ele deve ser apto, com habilidade e cálculo, a usar a irracionalidade em suas tentativas de evoluir na direção de um mundo racional.

Ele também nos diz que por várias razões, “o organizador deve trabalhar sob várias questões”. Cada pessoa ou grupo possui uma hierarquia de valores. Basta olhar para as pessoas do bairro. Pode-se encontrar alguém que tenha como meta enviar seu filho à escola, mas um outro que quer viver às custas de uma pensão, e daí por diante. Cada um tem um valores específicos e objetivos específicos. Uma organização focada em poucas questões, não tem muito para onde evoluir, mas aquela que atua sob múltiplas questões tem muito o que fazer.

Um esquizóide politicamente bem integrado

O termo esquizóide aqui tem a ver com o alerta de Alinsky para que o organizador não caia na armadilha de se tornar um fanático, como aqueles mencionados no livro de Eric Hoffer (“True Believer”). Ele nos dá mais detalhes:

Antes que as pessoas possam agir, uma questão deve ser polarizada. Os homens irão agir quando estão convencidos que sua causa está 100 por cento do lado dos anjos e que a oposição está 100 por cento do lado do demônio. Ele sabe que não pode haver ação até que as questões estejam polarizadas neste nível.

Ele também lembra, mais de uma vez, o exemplo da Declaração da Independência, na época em que os revolucionários omitiram todas as vantagens que as colônias tinham da Inglaterra, e citaram apenas as desvantagens.

O que Alinsky propõe é a divisão do organizador em duas partes: “uma parte na arena da ação onde ele polariza a questão para 100 ou nada, e ajuda a liderar suas forças em direção ao conflito, enquanto a outra parte sabe que quando a hora das negociações chegarem ficará claro que temos apenas uma diferença de 10 por cento – e ainda assim ambas as partes tem que conviver confortavelmente uma com a outra”. Apenas uma pessoa bem organizada pode se dividir e ainda permanecer sólido em si próprio. Para ser um organizador, não há escolha: esta é uma habilidade a ser dominada.

Ego

Como já mencionado no capítulo anterior, o ego do organizador deve ser monumental, em termos de solidez. Ego, que não pode ser confundido com egolatria, é “confiança sem reservas em sua própria habilidade de fazer o que acredita que deve ser feito”. Um organizador, para Alinsky, “deve aceitar, sem medo ou preocupações, que as chances estão sempre contra ele”. Pensando assim, ele se torna um homem de ação realmente pronto para agir.

Uma mente livre e aberta, e relatividade política

Estando todas as características anteriormente citadas presentes, em um certo grau ou outro, o organizador “se torna uma personalidade flexível, não uma estrutura rígida que se quebra quando algo inesperado ocorre”. Por causa de sua própria identidade, “ele não precisa da segurança de uma ideologia ou panacéia”. Mais:

Ele sabe que a vida é uma busca pela incerteza; que o único fato inexorável da vida é a incerteza; e ele pode conviver com isso. Ele sabe que todos os valores são relativos, em um mundo de relatividade política. Por causa dessas qualidades, ele dificilmente se desintegra em cinismo e desilusão, pois ele não é dependente de ilusão.

Por fim, Alinsky nos lembra que o organizador “está constatemente criando o novo a partir do velho”. Com a noção de que “todas as idéias surgem do conflito”, grande parte de sua atuação é baseada em criar.

É quando fica clara a distinção entre um organizador e um líder. Para ele, um líder tende a se motivar pela luta pelo poder, enquanto um organizador teria sua meta na criação do poder para que os outros o usem.


 

[1] É importante alertar que muito do que Alinsky falava em termos de organizações tinha muito a ver com a época em que ele vivia, pois hoje em dia o cenário para o desenvolvimento de organizações para o poder pode ocorrer não apenas em seminários e congressos “in loco” e comunidades de bairro, mas também por ações virtuais a partir das redes sociais. Por isso, muito do material que ele escreveu deve ser abstraído tanto para quem resolver atuar com um grupo sindical, “mano a mano”, como para alguém que resolva criar um grupo na Internet para lançar uma ação judicial via Ministério Público Federal contra um grupo oponente.

[2] É aqui que temos que fazer também uma lembrança aos conservadores de direita. Com a opressão esquerdista, hoje em dia muitos conservadores de direita possuem demandas, como, por exemplo, necessidade de redução de impostos e aumento de punições aos criminosos (para o conseqüente aumento da segurança). Estes são apenas alguns exemplos, dentre vários, de contextos onde pessoas com filosofia de direita possuem demandas, e estes grupos podem ser organizados da mesma forma que Alinsky organizava grupos de esquerda.

[3] Não se deixe enganar. Isso não significa que as organizações sindicais estão “fora” do jogo político, muito pelo contrário, mas sim que seus líderes raramente assumem posição dianteira no jogo das organizações de massa. Uma exceção à regra é o caso de Lula, que foi ao mesmo tempo um líder sindical, como também alguém que usou as regras de Alinsky para chegar ao poder reconhecido como um agregador de várias organizações de massa.

[4] Um outro ponto, em relação ao qual não se deve enganar. Se temos um grupo que não está acostumado a questionar, por exemplo, a autoridade, e a partir de um agente de mudança externo, adquire a confiança neste questionamento, é disto que Alinsky está falando. Revolução neste contexto, não tem a ver com a utopia, mas com a mudança radical de um comportamento. Como sempre, vale tanto para uma demanda de esquerda como de direita. Por exemplo, a solicitação para a redução da maioridade penal é uma demanda de direita. Se organizar para exigir essa mudança é uma ação que requer uma mudança nas formas de se pensar e agir que, obviamente, não estão funcionando.

[5] Essa é uma das bases de meus paradigmas do ceticismo político e do duelo cético, onde questiono a autoridade moral injustificada dos cientificistas. Em suma, “não existem vacas sagradas”.

[6] O imaginário popular cultivou a idéia de que os esquerdistas são os portadores do “bem comum”, e portanto seriam os que “se importam”, enquanto os conservadores de direita “não se importam”. A verdade é que ambos “se importam”, mas por meios diferentes. A diferença é que os esquerdistas manipularam um discurso mais populista. Por exemplo, o Tea Party é um movimento de rebelião movido por organizadores que identificaram que o trabalhador médio norte-americano estava sofrendo injustiças por um estado opressor, que lhes cobra impostos excessivos. É um movimento de direita. Em resumo, esse “feeling”, citado por Alinsky, deve ser até mais absorvido por alguém de direita do que alguém de esquerda. Hoje, a esquerda é o status quo, e a direita representa a rebelião.

[7] E, como ficou claro, “mundo melhor” não é mais exclusividade da esquerda, a não ser na questão de uma utopia.

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